“Tratar a arte enquanto necessidade humana é urgente”, afirma artista goiana

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As desigualdades de acesso à cultura no país ainda atingem a população negra, o que impacta também no cuidado à saúde mental e a possibilidade de expressar narrativas próprias, especialmente, diante do caos pandêmico.

espelho” e “asé” (2020), acrílica e óleo sobre tela. Foto: Arquivo Pessoal.

Declarado pela Associação Internacional da Arte (AIA), o Dia Mundial da Arte é comumente comemorado no dia 15 de Abril e celebra a importância desta área em todos os aspectos da vida humana. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a arte desempenha um papel importante no compartilhamento de conhecimento, na promoção da curiosidade e do diálogo, e é um meio de alcançar um mundo livre e pacífico. No entanto, extinto no início de 2019, o Ministério da Cultura do Brasil foi integrado ao Ministério do Turismo, tornando-se apenas uma secretaria e uma área fora da prioridade do governo.

De acordo com o Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existe desigualdade no acesso à cultura no país. O relatório aponta que 44% dos negros vivem em cidades sem cinemas, enquanto apenas 34% da população branca se encontra nesse patamar; e 37% dos negros vivem em cidades sem museus, contra 25% dos brancos. E ainda, conforme o levantamento, em 2018, havia 5,2 milhões de pessoas ocupadas no setor cultural do Brasil, um total de 5,7% de ocupados no país. Mais da metade desse setor era de mulheres (50,5%) e de pessoas brancas (52,6%); negros eram 45,7%. Isso, mesmo com o aumento, entre 2014 e 2018, de 8% de trabalhadores negros e com a redução de 7% de trabalhadores brancos no setor cultural.

Em relação a remuneração, a diferença continuou, nesse período, a participação feminina passou de 47,6% para 50,5%, mas o rendimento médio foi de R$ 1.805 contra R$ 2.586, dos homens.“A arte é um lugar que constantemente é sucateado e boicotado de vários lugares, e nesse mundo, se você não é um homem branco cis, o caminho é extremamente árduo e negligente com a sua narrativa. Me manter nesse lugar de artista e acreditar que a minha narrativa também é necessária, assim como de várias outras pessoas, é um lugar de potência e de muita excelência”, afirma Òkun, artista plástica goiana.

“Ser mulher negra e artista em Goiânia, é burlar as estatísticas”

Transitando entre as mais variadas linguagens artísticas, Òkun já foi cantora, modelo, atua como fotógrafa, realiza ilustrações e colagens digitais, mas foi aos 16 anos que encontrou na pintura sua vocação. Apesar da pouca idade, hoje com 20 anos, já ministrou diversas oficinas sobre pintura e pigmentos naturais (como o Urucum, o café, carvão e o açafrão), realizou exposições nacionais como no Circuito Nacional Trovoa e na Bienal Black Brazil Art, participou de feiras, ilustrou capas de livros, estampou tecidos para marcas independentes e reconhecidas. Além disso, é bacharelanda em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), participante do projeto de extensão “Cineclube Kalunga Goiás” da UFG e cursa pintura a óleo com o artista Diego Mouro – referência em pintura urbana no país. “Eu sempre tive muita conexão com as águas, é um elemento natural que me traz uma calma muito grande, me acolhe, me instiga. Sou filha de Yemajá, rainha do mar. Também carrego a força de Ogum, meu pai – e meu nome até parece com o dele. A cada dia vou honrando os saberes que meus ancestrais me ensinaram”, celebra.

Òkun é bacharelanda em artes visuais pela UFG – Foto: Arquivo Pessoal.

Desde o primeiro traçado até o arremate final, a criatividade de Òkun, gerada pelas vivências e intuições, atravessam pautas como a espiritualidade, o pertencimento, registros, a memória e a saúde mental, enquanto mulher negra, jovem e de terreiro de Umbanda. Todos os dias vão questionar nossa capacidade, nossa intelectualidade e nossa importância enquanto criadores e criatives negres. Acredito que também por estar fora do centro em que se roda o circuito da arte (SP-RJ) torna essa atividade ainda mais desafiadora e instável” 

De acordo com o SIIC (2019), do IBGE, a distribuição percentual da despesa com o setor de cultura pelos governos municipais foi de 3,8%, na região Centro-Oeste, e 47,8% na região sudeste, em 2018. Segue semelhante proporção a distribuição percentual de projetos aprovados pelo mecanismo de incentivo à cultura, na região sudeste foram 55,9%, já no Centro-Oeste foram 2,8%. O que significa que a região sudeste ainda movimenta maiores recursos para a implementação de ações no setor e, consequentemente, maior visibilidade no cenário nacional.

Em relação aos enfrentamentos no espaço acadêmico, que ainda carrega uma percepção de arte europeia e branca, Òkun desabafa. “Esse lugar ocupado por poucos dentro da Universidade, é um lugar de muitas violências. Está sendo realmente uma batalha. E não porque o conteúdo é difícil ou é muita matéria, mas porque justamente tenho que sempre me deparar com esse olhar da branquitude a todo momento, com os próprios professores e orientadores duvidando da capacidade de alunes racializados, perseguindo alunes, nos tratando como primitivos. São inúmeras as formas de violência”, lamenta.

Para tentar mapear, registrar e divulgar artistas racializados, Òkun realizou o projeto Pluralidades, uma série de vídeos em seu Instagram que impulsionou a visibilidade de outras produções e produtores de arte no país.  

“no jardim das oliveiras” (2020), colagem digital “somos da mata” (2019) e “intuição”, (2020) – técnica mista sobre tela com tranças utilizadas pela artista em 2017. Fotos: Arquivo Pessoal.

Arte, pandemia e cura

Incentivada e inspirada pela mãe e pela avó, desde cedo foi movida a se expressar artisticamente. Para se sustentar nesse período de pandemia, que ativa ansiedade, sintomas depressivos, surtos e estresses, Òkun encontra na arte e na espiritualidade o seu lugar de cura para caminhar “sem pressa e sem pausa”, como diz sua mãe de santo.

Òkun também faz uma observação a respeito da importância da arte não só enquanto uma forma de demonstrar o nosso mundo, mas também como força que ampara a saúde mental frente aos casos pandêmicos. Se tem uma coisa que a pandemia colocou na mesa é que dá pra gente viver sem qualquer coisa, menos sem arte. Tratar a arte enquanto necessidade humana é urgente. Arte é expressão. Quando a gente se expressa, a gente tá colocando pra fora aquilo que estava guardado dentro e não há nada mais potente do que se expressar, limpar, aliviar”, conta. “A saúde mental está diretamente ligada ao modo como a gente se expressa. Em se sentir confortável em demonstrar pro mundo aquilo que você sentiu, seja bom, seja ruim. É o sentir que importa” 

Além disso, a falta de acesso à arte e a produção de arte por diferentes pessoas, interfere no combate às violências, pois as impedem de expressar suas narrativas e encontrar processos de cura. “Em relação a população, não só preta mas indígena, nipo-brasileira, marrom, cigana, e quaisquer outras etnias que são diariamente violentadas pelo sistema da branquitude, é pensar em estratégias, a arte é uma estratégia, arte é escape, arte é política, a arte é potente, finaliza.

Ilustração digital “irmãos” (2019), Òkun durante uma de suas pinturas e “Santíssima Trindade” (2019) – acrílica, óleo e colagem de concha sobre tela. Fotos: Arquivo Pessoal. Saiba mais em: okun.art.br.
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1 Comment

  • Lucia Cristina Savio

    (17/04/2021 - 09:20)

    SIGA..Pra nós não foi, e não fácil…trabalhamos para que fique! Parabéns!

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