Rua Azusa é vencedor do Prêmio Bibi Ferreira na categoria Musical Revelação

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“Esse espetáculo é uma denúncia”, diz diretor de “Rua Azusa”

O musical “Rua Azusa” foi o grande vencedor do Prêmio Bibi Ferreira de teatro, na categoria “Musical Revelação”, anunciado na última terça-feira, 24. Desde que chegou ao Rio de Janeiro, no dia 13/9, o espetáculo, que aborda o tema do racismo no meio religioso, tem repetido a faceta conquistada em São Paulo: obter sucesso de público sem nenhum patrocínio. Em apenas duas semanas, quase 8 mil pessoas já assistiram ao musical de inspiração evangélica, da Cia Nissi. A plateia tem lotado todas as sessões, no Teatro João Caetano, e a produção avalia abrir mais dias de exibição.

Parte do elenco da peça Rua Azusa – Foto: Cia Nissi

Rua Azusa é inspirado no surgimento do movimento Pentecostal moderno e em como este fenômeno religioso quebrou a barreira do racismo em meio ao grande conflito da segregação americana. Conta a história que em 1906, William Seymour, um pastor evangélico negro, descendente de escravos, chega a Los Angeles para fazer sua pregação e é inspirado por Deus a iniciar um tipo de culto que unia negros e brancos para orar e realizar curas. Seymour é inspiração para Elizabeth, que, já nos dias de hoje, resiste para que seu marido, um pastor preconceituoso, aceite Maria, uma menina negra adotada pelo casal.

O conteúdo da peça é algo surpreendente, aborda o tema do preconceito racial, da escravidão americana e da intolerância de todos os tipos, na mesma medida em que prega a mensagem cristã. É tudo sob medida: repertório, vozes e banda impecáveis; contextualização histórica, cenas carregadas de emoção e até uma boa dose de humor.

Conversamos com o diretor e autor do espetáculo, Caíque Oliveira, para entender os elementos que compõem o musical e como ele tem sido recebido pelo público carioca.

Notícia Preta: Como tem sido a temporada no Rio de Janeiro, e quais foram os desafios de trazer o musical para o Rio?

Caíque: O público do Rio é incrível, caloroso, e nós já temos uma ligação muito especial com essa cidade, que sempre acolheu muito bem a Cia Nissi. Acredito que o maior desafio foi o da mudança mesmo. Viajar com um musical sem nenhum patrocínio requer muita estrutura, e muita fé. A liberação judicial para as crianças saiu muito em cima, e começamos a vender os ingressos faltando menos de uma semana para a estreia. Mas graças a Deus, temos 3 semanas de espetáculo com lotação.

NP: De onde surgiu essa história?

Caíque: Em princípio, nosso objetivo era falar sobre o centenário do movimento pentecostal moderno, que nasce na Rua Azusa, em Los Angeles, em 1906 (Hoje grande parte dos evangélicos pertence ao movimento Pentecostal). Mas ao estudar o livro “100 anos de Pentecostalismo” me deparei com uma cena: William Seymour foi estudar a Bíblia numa escola em Houston e lá foi impedido de ficar dentro da sala, tinha que estudar do corredor. Ele não podia ser “tocado pelo Espírito Santo” porque não podia tocar na mão de um homem branco. Descobri que até nas igrejas a segregação era algo latente. Isso mexeu muito comigo. Aí falei: “essa é a história”. Isso me saltou porque é preciso dizer que Deus não faz distinção de pessoas. Naquela época, Los Angeles estava em plena corrida pelo ouro. La tinha gente de todo tipo, asiáticos, árabes, e estes também sofriam com a segregação. Aí, em um galpão sujo de uma rua qualquer, começa um movimento antirracista.

NP: Esse tema do racismo ainda é um tabu nas igrejas?

Caique: Isso é o que mais me assusta. Na montagem da peça, durante os laboratórios, as pessoas começaram a chorar por que contaram suas historias. Uma das atrizes, por exemplo, contou que, quando começou a assumir o “black” dela, ouviu do próprio pastor: “nossa, seu cabelo era tão lindo, o que aconteceu”? E de certa forma, as igrejas estão cheias de gente, que de maneira muito sutil, vai excluindo as pessoas pelo tipo que elas têm, pelo estereótipo delas etc. E isso não combina com o Evangelho.

NP: Então, o que é o Rua Azusa?

Caique: Esse espetáculo é uma denúncia. É um tapa na cara. Recebo depois muitos pastores que vêm contar sobre os preconceitos que tinham guardado. Não apenas o racismo, mas a questão da mulher também, até mesmo por uma interpretação errada da questão da mulher na bíblia. Então o Azusa abre um leque que mexe com as pessoas, confronta vários preconceitos guardados dentro das pessoas.

NP: porque o público deve ir ver Rua Azusa no teatro?

Caique: Rua Azusa não é apenas uma peça, não é só entretenimento, é uma grande história que tem o potencial de mexer no íntimo das pessoas, mexer com nossas convicções. É uma carga de emoções, muitas experiências juntas e é feito com muita paixão. Vale muito a pena. Venham ver, no Teatro João Caetano, sempre de sexta à domingo. 


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Jersey Simon

Jornalista, especialista em Comunicação estratégica, empreendedor. Na luta por um Reino de Justiça e paz.

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