“Quando a esquerda é racista com uma de nós, ela é racista com todas nós”, diz Thais Ferreira, candidata a vereadora no Rio

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Thais Ferreira – Foto: Redes Sociais

Thais Ferreira é mulher, preta, anticapitalista, antifascista, mãe e primeira suplente de Deputada Estadual pelo PSOL no Rio de Janeiro. Em 2018, a carioca recebeu mais de 24 mil votos na disputa para uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). 

Em agosto deste ano, Thais correu o risco de ser impedida de concorrer às eleições pelo partido, após o Psol Carioca divulgar uma resolução proibindo candidaturas de quem tenha participado de “plataformas de formação, financiamento e estruturação de campanhas, tais como, RenovaBR, Raps e similares”. Esta cláusula, que impediria a candidatura de Thais, já que ela ela tinha feito à distância o curso RenovaBR 2018 onde aprendeu sobre direito eleitoral, redes sociais, financiamento coletivo e assuntos afins, também inviabilizaria outras seis pré-candidaturas. 

Outro impeditivo, era o candidato ter participado de mandatos legislativos de partido apoiador de, segundo Psol, “governos burgueses de direita”. Alguns setores da legenda chegaram a comparar a carioca à deputada Tabata Amaral (PDT-SP), e disseram que Thais assessorava uma parlamentar de outro partido. 

Foi então que diversos líderes e movimentos negros atuaram em defesa da ativista e fizeram um manifesto. O documento recolheu centenas de assinaturas  incluindo o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro, UNEGRO, Favela Brasil e Fórum de Mulheres Negras, além dos artistas Rodrigo França e Preta Ferreira e do ex-deputado Jean Wyllys.

Para muitos ativistas a atitude do partido em relação a Thais Ferreira, e a redução da história da carioca um curso EAD, foi racista. 

Aos 32 anos, Thais só conseguiu concorrer a uma vaga na Câmara dos Vereadores do Rio em 2020 após recorrer à executiva nacional para ter direito a uma legenda.  As pautas prioritárias da candidata são: primeira infância, combate irrestrito ao racismo, saúde para as mulheres e direito à cidade para todas, todes e todos.

Em um país onde candidatos brancos têm o dobro de chances de serem eleitos vereadores, em comparação com seus concorrentes negros – o que pode ser comprovado quando analisamos os resultados das eleições de 2016 nas 26 capitais brasileiras – Thais precisou fazer uma vaquinha para pagar as despesas de campanha.

Em entrevista ao Notícia Preta a candidata fala sobre a importância das mulheres negras na política, racismo e sobre como é ser um corpo preto na política. Confira!

Thais com sua família – Foto: Redes sociais

Notícia Preta: Como você ingressou na política partidária?

Thais Ferreira: Em 2017 acompanhei o evento Mulheres na Política de Marielle Franco e comecei a pensar que a organização partidária poderia fazer sentido para o meu ativismo comunitário, em 2018 recebi um convite de Marielle para me filiar e tentar uma candidatura pelo PSOL, pois ela queria ser uma “embaixadora de candidaturas de mulheres negras”, achei essa movimentação incrível e o convite era irrecusável vindo de alguém que era uma referência importante de política efetiva para mim.

Notícia Preta: Você é a primeira suplente de deputada estadual e recebeu quase 25 mil votos em 2018 . Mesmo assim, passou por um   processo que quase impediu sua candidatura a vereadora  este ano. Como você viu esse impeditivo e como conseguiu mudar este cenário?

Thais Ferreira: Sim, apesar desse resultado não fui qualificada para estar entre as prioridades. Existe também a faixa “mulheres negras potencial eleitoral ” mas não estou nela.

Consegui o direito a legenda recorrendo a um recurso apresentado à Executiva Nacional do PSOL. Porém, a direção municipal tem autonomia na decisão sobre o fundo e, mantém sua posição e seus acúmulos sobre minha trajetória prévia. E assim acatou a decisão da nacional como o máximo que poderia fazer no momento, achando que este feito já seria uma boa sinalização para mim. No entanto, por conta da desconfiança política sobre o meu nome, me deixaram na faixa básica de financiamento, ou seja, com acesso apenas aos serviços compartilhados prestados às candidaturas, que são pagos com o valor do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).

NP: Como você vê o avanço das candidaturas de mulheres negras na política e quais são as barreiras que ainda precisam ser enfrentadas?

TF: É um movimento muito nosso e necessário. Sinto-me orgulhosa por fazer parte deste verdadeiro levante de potências negras que tem se colocado à disposição desta disputa. É uma importante afirmação ética, estética e política, capaz de promover mudanças estruturas. E por isso mesmo as “barreiras” tentam nos imobilizar e inviabilizar nesse lugar, o lado branco, masculino e dominante da situação usa de todas as formas do racismo para manter as coisas no lugar onde estão. Mas, eles que se levantem porque nós não vamos nos deitar!

NP: Você acredita em uma esquerda é 100% antirracista?

TF: Não. Não acredito que nada que tenha maior parte de brancos nos lugares de tomada de decisão possa ser 100% antirracista. O combate ao racismo precisa ser feito de forma irrestrita, em todos os lugares, de todas as formas, por todos os meios, toda hora. Não adianta incluir meia dúzia e achar que é menos racista por isso, e até mesmo a esquerda, quando está sendo racista com uma de nós, deveria saber que está sendo racista com todas nós.

NP: Como é ser um corpo preto e feminino na política?

TF: É ressignificar as estatísticas, os riscos e a própria presença. É fazer afirmação positiva de meninas, mulheres e senhoras negras que vieram ou que ainda virão. Para mim, especificamente é criar consciência na minha própria carne de que as leis desse país precisam vir das mãos de uma mulher preta que já pariu.

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