“Podemos até ser vítima, mas vítima pacífica nunca mais” diz repórter da CNN abordado de forma truculenta pela polícia no RJ

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Jornalista há mais de 10 anos, Jairo Nascimento, da CNN Brasil, já passou por diversas situações de racismo, mas pela primeira vez o repórter teve um fuzil apontado para seu rosto em uma abordagem policial. Na última segunda-feira (12), por volta das 05h30 da manhã, o jornalista saia da emissora, localizada no Centro da capital fluminense, acompanhado de seu cinegrafista e de um auxiliar. Todos os três negros. Há poucos metros da redação os profissionais, que estavam em um carro da CNN descaracterizado, ouviram a sirene da polícia e entenderam que deveriam parar.

Quando saímos do carro um dos policiais estava apontando a arma pra minha cara, outro agente mirava para o cinegrafista. Tinha um terceiro policial, mas não lembro se ele apontava pra gente, eu estava focado naquela arma de alto poder destrutivo apontada pra minha cara”, conta o repórter. “A  primeira reação que veio na minha cabeça foi resolver aquela situação o mais rápido possível e sair da mira daquela arma. Por isso, quando estávamos avançando com o carro e percebemos que aquela ofensiva da polícia era contra o nosso veículo de reportagem, eu pedi pro cinegrafista sair com a câmera na mão e eu peguei o microfone. Fiquei com muito medo, preocupado e com uma sensação de impotência”, relata.

Em entrevista ao portal Notícia Preta, Jairo, que tem passagens pelo SBT, Globo e Record, conta que vivenciou outros casos de racismo ao longo de sua carreira, inclusive com esta sua equipe da CNN composta por três profissionais negros.

Outra vez estávamos neste mesmo carro descaracterizado da emissora, voltando de uma matéria na zona sul carioca quando vimos uma blitz e logo comentamos ‘eles vão nos parar’. Muitos carros na nossa frente passaram , mas com pessoas brancas dentro. Olharam dentro do carro, perguntaram o que fazíamos e, ao ver três homens negros dentro de um carro caro, perguntaram se o meu colega que conduzia o veículo era Uber. Como se o rapaz não pudesse ser o dono do carro“, conta Jairo.

O repórter lamenta  que o racismo estrutural leve homens negros a terem estigmas de criminosos no Brasil.

A violência é um dos problemas centrais do racismo. Faz parte do estigma e da construção da narrativa do que é o racismo, ter essa necessidade de criar defeitos e depois aponta-los para a população negra. As ideias quando tratadas dessa forma e repercutindo ao longo dos anos passam a ser tratadas como verdade e ficam presentes nesse consciente coletivo, fortalecendo o racismo estrutural”, afirma o jornalista.

Jairo que há quase um ano mora no Rio de Janeiro, reconhece que o fator numérico e histórico torna o Rio de Janeiro mais tenso quando se fala em racismo, mas que já presenciou situações racistas nas duas regiões.

A partir do momento que eu comecei a entender o que é racismo no Brasil, eu tomei como opção pra mim de nunca deixar de frequentar um espaço por conta da minha cor”, diz Nascimento.

Quando o assunto é representatividade no jornalismo, Jairo cita Herivelto Oliveira e Dulcinéia Novaes com quem teve a oportunidade de trabalhar e que o ajudaram não apenas na profissão, mas também em relação às questões raciais. 

A representatividade ajuda em tudo, ajuda na autoestima e cria esperança. Eu tenho um sonho de que um dia nós possamos ser contratados para fazer uma função, não sendo tratado como o negro da equipe ou pra atender a expectativa de uma empresa, mas sim pela minha capacidade, pelo que lutei e estudei para fazer”, explica o jornalista.

Pai de um menino negro e filho de um homem negro, Jairo diz que todo caso de racismo deve sempre ser denunciado: “Lembro das histórias que meu pai contava de ter sofrido racismo e sempre ter algum tipo de reação, seja levando para o meio jurisdicional ou se manifestando. Eu aprendi essa lição desde pequeno e quero ensinar para o meu filho que racismo é um crime, ele não pode deixar passar. Tenho medo, pois da mesma forma que eu fui vítima, ele também pode ser. Podemos até ser vítima muitas vezes, mas ser uma vítima pacifica, nunca mais”, declara o jornalista.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

1 Comment

  • Geni Ferreira de Freitas

    (16/10/2020 - 09:40)

    Isso mesmo, também concordo com o Jornalista, temos que denunciar sempre. Quem sabe assim, os racistas comecem a se envergonhar e as instruções a formar seus profissionais de forma mais adequada!!!

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