O mito do ‘branco salvador’ exalta a generosidade da branquitude e a miserabilidade da negritude

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Rafa Kalimann posando com crianças pobres na África

Caridade é um gesto nobre. Sempre. Mas a exposição dessa generosidade é benéfica para quem? Para quem expõe ou para quem é exposto? O que leva uma pessoa a fazer caridade e postar seu gesto de solidariedade? O que trago não são julgamentos, e sim um convite a reflexões. .

Há uma semana postei este mesmo texto no Instagram do Notícia Preta e esta foi a publicação de maior visibilidade da história do nosso perfil, hoje com 134 mil seguidores. Mas por que falar sobre o mito do branco salvador gera tanta repercussão nesse momento? Pelo falo de termos uma participante em um reality show que diz que caso ganhe vai doar R$1,5 milhão para as crianças pretas e pobres da África? Ou por que a branquitude ficou incomodada quando confrontada com sua hipocrisia social?

Você já parou para pensar que nessas fotos ‘generosas’ da branquitude, nós não sabemos quem são as crianças, não entendemos o contexto da situação? Se quer sabemos se a foto foi feita com o consentimento dos responsáveis daquele menor. Esse tipo de ação faz com que tenhamos a impressão de que existem ali os “coitados” e as “heroínas ou heróis”. Isso é o que chamamos de “complexo de branco salvador” (do inglês “white savior complex”). Quando um branco acredita que pode salvar a miséria do mundo (que seus antepassados ajudaram a construir) e aproveitam dessa situação para expor estes pequenos corpos pretos nas redes sociais, eles estão colaborando para reforçar estereótipos, como os de que África é um continente miserável e que os africanos são incapazes de sobreviver sem a ajuda dos brancos. Quando na verdade, a branquitude e seus sistemas de estrutura de dominação e poder são os grandes responsáveis pela desigualdade social e racial no mundo.

DJ Alok na África

Ver o continente africano como um local onde não há riqueza cultural e apenas miséria, é o que estimula milhares de pessoas a viajarem para estes países, fazer trabalhos voluntários e assim se sentirem melhores e mais generosos. Ajudar quem necessita é importante, mas fazer disso uma propaganda ou um processo de evolução espiritual e pessoal, é violento.

A indústria do voluntarismo é riquíssima, mas segundo alguns especialistas estes projetos são prejudiciais às comunidades, especialmente as que envolvem crianças. Muitos deles são organizados por líderes religiosos e igrejas que além de levarem “ajuda” levam também suas religiões e as “apresentam” para aquelas pessoas, passando por cima das tradições e culturas locais. Religiões brancas apresentadas para negros como uma forma de salvação do corpo e do espírito. Já vimos essa história, correto?

Para superar crises econômicas, políticas e sociais que resultam em territórios extremamente empobrecidos é preciso, além de boas intenções, medidas estruturais e políticas. O complexo do “Branco Salvador” não altera as estruturas diretamente, pelo contrário, ele desumaniza e infantiliza ainda mais aquela população.

Enquanto o “Branco Salvador ” posta selfie com criança preta desnutrida, sem ao menos se importar em resguardar a imagem daquele menor, os ativistas locais passam a vida lutando por mudanças profundas, muitas vezes sem receber patrocínio ou likes e o devido recohecimento.


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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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