No mês da mulher afro-latino-americana e caribenha é discutida a inclusão de mulheres negras no ambiente profissional

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Negras juristas – Foto:Abayomi

De tempos em tempos, surge um ou outro comentário perguntando: “onde está a diversidade?”, “Onde está o negro aqui?”. O debate é erguido esporadicamente, em sua maioria por negros. Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), a realidade de pessoas negras no mercado de trabalho é precária e muito longe do ideal.  

De acordo com a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais, realizada em 2018, 14,7% da população negra estava desempregada naquele ano. Dentro desse mesmo âmbito, os que estavam empregados – em sua maioria – exerciam cargos de serviços gerais (construção civil e domésticos) e agrícolas. Devido aos acontecimentos dos últimos meses, entre eles a pandemia do novo Coronavírus, os números não melhoraram. 

Entre os dados apresentados pelo IBGE em maio desse ano, foram cerca de 12,2% de desocupados, subindo 1,3 ponto percentual em relação ao 4º trimestre de 2019 (11,0%). Sendo 10,4% para os homens e 14,5% para as mulheres. A taxa de desocupação das pessoas que se declararam brancas (9,8%) ficou abaixo da média nacional; porém a de pessoas pretas (15,2%) e pardas (14,0%) manteve-se acima.

Na quarta semana de junho, os números subiram para 13,1%, totalizando 12,4 milhões de pessoas desocupadas, segundo dados divulgados na última sexta-feira (17), pelo mesmo órgão.

Em contrapartida, com a crescente do movimento “Black Lives Matters”, reativado pelo caso de assassinato de George Floyd, algumas empresas têm tentado aumentar o percentual de profissionais negros para demonstrar apoio a diversidade racial. Contudo, dentro dessa mesma discussão, dados referentes às mulheres negras nem sequer entram nas estáticas. 
Não é de hoje que as mulheres negras lutam para obterem reconhecimento e espaço no mundo profissional. No mês da mulher afro-latino-americana e caribenha, comemorado no dia 25 de julho, precisamos reconhecer que muito já foi conquistado. Hoje, temos negras em locais de destaque, seja nas escolas, hospitais, moda e ciência, mas, ainda há uma larga montanha para escalar. 

Em meados dos anos 60, quando as leis de segregação racial ainda estavam em vigor e ditavam quem podia o quê, a educação era algo extremamente elitizado. Não que hoje seja muito diferente. Naquela época, uma criança estadunidense de 6 anos de idade, chamada Ruby Bridges realizava um dos maiores atos em prol dos direitos civis e se tornou um símbolo de inspiração para crianças e mulheres negras na histórica dos Estados Unidos e do restante das Américas. 
Com uma escolta de quatro agentes federais, Ruby e sua mãe chegaram para seu primeiro dia de aula em uma escola estadunidense. O Supremo Tribunal Americano estava realizando um experimento para descobrir se seria possível a presença de uma criança negra em um espaço de educação.  Aos berros, uma multidão de pessoas brancas alegava que não deixariam seus filhos dividissem o mesmo ambiente que uma pessoa negra. Por todo aquele ano, a escola voluntária teve apenas cinco alunos matriculados. Ruby e outros quatro estudantes brancos.
A presença de Ruby como uma das primeiras crianças afro-americanas a terem acesso a educação revela um dado tão recente quanto antigo. A primeira barreira para as mulheres negras é a educação. 

Embora seja considerado um direito básico do cidadão, cerca de 14% das mulheres negras são analfabetas. Quase o dobro do que brancas (5,8% segundo o IBGE), apontando a elitização do ensino. O que nos obriga a questionar: se não há meninas negras nas escolas, até mesmo nas redes públicas, como podem ocupar cargos que só aceitam pessoas escolarizadas? 

Nas universidades e faculdades, a presença negra é ainda menor. Em solo acadêmico, enfrentam racismo, desmoralização do conhecimento que obtiveram e uma busca incessante por espaço e reconhecimento. Apesar dos esforços, pouco é tido em troca, pois na hora da candidatura, seja para uma vaga de emprego ou inscrição para eventos de âmbito acadêmico, a elitização entra em jogo novamente, o que reflete de forma escancarada na baixa representatividade em cargos elevados.

Segundo o Portal Geledés,  a presença negra nos Tribunais Superiores, como Superior Tribunal de Justiça (STJ), Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal, Superior do Trabalho (TST), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Superior Tribunal Militar (STM), representam apenas 1,3%.  Isto considerando que 7,6% são pardos. 

Ainda é dito mais. Segundo um apontamento levantado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que realizou o Censo Judiciário no ano de 2018 com 11.348 magistrados (62,5%), de um total de 18.168 juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores 80,3% é branca e 18% negro. O público feminino não foi contado. 

A procuradora federal, professora e acadêmica de Direito Chiara Ramos lamentou a baixa representação. “Todos esses ambientes são predominantemente compostos por homens brancos, são poucas mulheres que têm espaço e as mulheres negras são raríssimas”, constata. “Eu mesma só conheço duas além de mim, numa carreira numerosíssima de mais de cinco mil membros”, pontua.

Segundo ela, apenas 2,3% de mulheres negras exercem o cargo de procuradora ou de servidora na Procuradoria Geral Federal, por exemplo. Além disso, apenas 2% dos cargos da Advocacia Geral da União são ocupados por mulheres negras. Na magistratura federal, só 5,1% dos cargos. E, no Ministério Público Federal, não há mulheres que se declarem negras.  

Como o esperado, as circunstâncias permitiram uma reinvenção da população negra. Nos últimos anos, surgiram vários grupos de apoio a mulheres negras em espaços de trabalho. Chiara Ramos e as juristas do “Abayomi” estão entre eles. 

Chiara quis devolver e servir. Para isso, decidiu desenvolver uma metodologia que hoje é aplicada através do Abayomi. O método foi idealizado para que advogadas não inseridas no mercado de trabalho pudessem ter uma preparação apropriada para concursos públicos e exames do meio como o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Fui atrás da Comissão de Igualdade Racial da OAB de Pernambuco, conheci mulheres negras incríveis e, a partir daí, comecei a perceber a realidade da advocacia pernambucana para a mulher negra. Se elas forem mulheres negras conscientes de raça e que ostentam o seu cabelo black power e as suas tranças e que não tentam se embranquecer, não são aceitas nos escritórios de advocacia. São frases como ‘a sua estética não combina’, ‘seu cabelo tá bagunçado, ‘você tem que alisar o cabelo’ e essas violências acontecem cotidianamente”, relata a procuradora. “Sem a pluralidade no sistema de Justiça, não há Justiça”, afirma Chiara.

Aplicativo Negras Plurais – Foto: Reprodução

Iniciativas empresariais
Outro exemplo é o Negras Plurais. Iniciativa criada pela empresária negra Caroline Moreira, conhecida no meio por seu ativismo em favor do empoderamento feminino negro. O intuito do projeto é ajudar a introduzir a mulher negra em espaços de trabalho através de palestras, curadorias e outros. “Somos uma rede que promove conexões entre mulheres negras empreendedoras, intraempreendedoras, empresas e mercado econômico, afim de minimizar as desigualdades de gênero e raça”, apontam em seu site oficial. “A desigualdade racial no mercado de trabalho é um problema econômico que precisa ser resolvido de forma imediata. Acreditamos na necessidade de times que tenham representatividade compatível com a diversidade da população e da força de trabalho. Possuir colaboradores com diferentes pensamentos, culturas, etnias, opiniões e deficiências, permite que a empresa se torne mais plural e democrática”. 
A startup visa a criação de um aplicativo para facilitar o contato entre consumidoras e empreendedoras negras. Com mais e mais iniciativas do gênero, todas poderemos compor espaços de destaques em nossas profissões e dessa forma inspirar uma próxima geração a saber que podemos ser mais. 

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Gabriella Reis

Jornalista, escritora e web-redatora. "Se ninguém te escuta, escreva!"

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