No dia do circo, conheça histórias que afirmam a importância do circo social na periferia

APOIE O NOTÍCIA PRETA

Projetos com a metodologia do circo social impactam a vida de crianças e jovens negros

Circo Crescer e Viver recebe medalha de Ordem do Mérito Cultural Carioca pelo segundo ano consecutivo Crédito: Reprodução/Instagram

Dar a volta no picadeiro com o monociclo. Jogar os malabares para o alto enquanto anda na corda bamba. Se equilibrar na perna de pau. Talvez não seja muito óbvio, mas a arte circense ultrapassa os limites artísticos. Neste sábado (27) é celebrado o Dia Nacional do Circo, e vale ressaltar a importância do circo social para a população negra e periférica. Ao voltar na história do circo brasileiro, o nome de Benjamin de Oliveira tem muito valor. Considerado o primeiro palhaço negro, o artista mineiro imprimiu a sua personalidade e trouxe o circo-teatro para o Rio de Janeiro.

Batizado em homenagem ao artista, o Circo Escola Benjamin de Oliveira é um dos pilares da ONG “Se Essa Rua Fosse Minha (SER)”. Localizado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o projeto foi inaugurado em 2014 e visa, por meio da metodologia do circo social, contribuir na formação cidadã e moral dos alunos. O SER foi idealizado pelo sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho.

O presidente do SER, Walter Mesquita, explica o contexto que motivou a criação da ONG. “O ponto de partida foram as abordagens de rua e toda complexidade que envolvia esse tema na década de 1990. Nessa época, o SER ainda era um movimento em que os educadores sociais observavam o fluxo de vai e vem de crianças que viviam em situação de rua no Centro do Rio de Janeiro e em Copacabana”, conta. A partir disso, o movimento, as brincadeiras, a convivência e resistência deram origem ao projeto.

Criada em 2004, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, a sede do SER ampliou as atividades do projeto e incorporou a linguagem teatral e danças populares para atender crianças e jovens da região. Walter afirma o quanto eles têm orgulho do trabalho desenvolvido com os alunos “que encontram nesses espaços não só uma escola, mas um espaço de convivência, segurança e respeito”.

Ao exemplificar uma dessas mudanças de vidas, Walter conta a história de Marco Aurélio. “Um menino atendido pelo projeto que sobrevivia nas ruas de Copacabana, entre furtos e fugas da polícia. Acabou sendo seduzido pelo universo mágico do circo e o som da percussão, muito diferente dos estampidos de tiro que ele estava acostumado a ouvir”, relata. O menino cresceu e atualmente é vice-presidente da instituição, coordenador responsável pela parte técnica e diálogo com os adolescentes e jovens atendidos.

Apresentação da Trupe Malungos na X Conferência Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do RJ, em julho de 2020 Crédito: Reprodução/Instagram

Iniciativas como essa têm impacto real e possibilitam o movimento de pessoas negras e periféricas ingressando no setor cultural. Em 2019, o Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais que refletem o aumento de 8% na presença de negros no setor em uma análise do período de 2014 a 2018. Enquanto isso, houve uma queda de 7% na participação de trabalhadores brancos. Apesar disso, brancos ainda são maioria na ocupação do setor. Em 2018, eram 52,6%, enquanto pretos ou pardos eram 45,7%.

Com a proposta de diversificar o acesso à cultura, o Circo Crescer e Viver também realiza um projeto muito potente com o Programa de Circo Social há 20 anos. Desde 2004, localizado na Cidade Nova, no Rio de Janeiro, ele possui uma relação profunda com o território. A atuação do circo marca a vida dos alunos que passam e passaram por ele. Mães que levam seus filhos e crianças que se tornam educadores sociais de lá quando crescem exemplificam como essa realidade adentrou à comunidade.

A assistente social do Circo Crescer e Viver, Fabyane Soares, também responsável pela Coordenação sociofamiliar e Comunitária da instituição, afirma que o circo social trabalha questões que vão além do aspecto pedagógico e educacional. Por meio das atividades da linguagem circense, os alunos lidam com a autoconfiança e a confiança no outro, por exemplo. O circo lida com muitos riscos, assim possibilita que as crianças e jovens aprendam, também, a se desafiarem, na prática. “A gente trabalha com uma população muito vulnerável, com as mais diversas dificuldades. Aqui no circo todo esse elemento do lúdico, da invenção, da criatividade, de fazer esse malabarismo na corda bamba, que essa população já convive, ganha um novo lugar”, explica.

Diante dessa realidade, Fabyane enfatiza a importância desse local do protagonismo, que permite uma outra narrativa para essas pessoas que são, em sua maioria, jovens negros, inclusive, mulheres negras. “A gente conhece a história de cada criança ali no picadeiro. Lembro de quando um deles conseguiu ficar na perna de pau. Eu percebo que tem uma coisa ali do circo que é essa confiança de estar lá no alto, de ter mais autoconfiança, aí ele vai encarando os desafios de uma maneira diferente“, reflete.

Um desses exemplos é da aluna Ane Caroline, de 19 anos. O Circo Crescer e Viver já estava presente na realidade de Ane desde sua infância. Ainda criança, teve o primeiro contato com o circo social, mas com o tempo deixou de ir até retornar no ano passado à convite de uma amiga. Ela conta o quanto essa experiência impactou a sua vida pessoal. “Mudou muita coisa na minha vida. Eu era muito tímida para socializar e fazer amizade, por exemplo. Com o acolhimento daqui, eu coloquei na minha mente que eu consigo sim fazer o que eu quero”, declara. Essa fala da Ane mostra o quanto a presença da arte foi importante na sua trajetória.

A jovem também deixa o incentivo a quem quiser entrar para o circo: “Tenho amigos que estudam aqui desde pequenos e foram pra fora do Brasil. Se você tem um objetivo e se aprofundar, a sua vida pode mudar”, concluiu.

APOIO-SITE-PICPAY

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.