”A pandemia vai deixar rastros psicológicos severos”, diz psicóloga da linha de frente da Covid-19

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“Posso dizer com toda certeza que essa pandemia vai deixar rastros psicológicos severos. Um outro exemplo disso são os psicólogos hospitalares, antes existiam demandas específicas de acolhimento nos leitos e hoje eles têm se preparado para dar várias notícias de óbito em um só dia. É acolher a demanda do outro e a sua.” As palavras são da psicóloga Tatiana Mendes, especialista em terapia cognitiva comportamental pela UNIFIA (Centro Universitário Amparense), que trabalha de forma autônoma e no Hospital Couto Maia, em Salvador-BA, referência no tratamento do coronavírus.

O Portal Notícia Preta entrevistou a psicóloga particular e hospitalar Tatiana Mendes, de 27 anos, e ela contou como está pesada a sua rotina. ”Estou cansada e exausta. A pandemia alterou muito a forma como nosso trabalho é visto e como nós trabalhamos. A rotina é muito mais cansativa e na maioria das vezes você não tem opção de diminuir essa carga horária”, explicou, complementando também que a maioria dos seus pacientes são pessoas negras, sendo reflexo da população negra ser a maior atingida durante a pandemia, notícia já publicada pelo Notícia Preta.

Mas não é desde o início da pandemia que a rotina dos psicólogos está diferente. Logo nos primeiros meses da Covid-19, esses profissionais não faziam parte dos que atuam na linha de frente combatendo o vírus. Porém, desde do segundo semestre de 2020 devido ao agravamento da pandemia, a profissão foi incluída e a procura por eles aumentaram, sejam por vídeo chamada ou em acompanhamento dos pacientes internados.

Segundo o GetNinjas, plataforma de contratação de profissionais de saúde, de março até dezembro de 2020 a busca por psicólogos foi de 68% das solicitações, somando mais de 50.000 pedidos. A frequência de notícias ruins, falta de esperança, solidão e muitos outros fatores são os responsáveis por esse aumento de consultas psicológicas, motivos que são intensificados com piora da proliferação da Covid-19 e com os decretos municipais ou estaduais para diminuir a disseminação do vírus, restringindo a circulação de pessoas nas ruas das cidades.

“Chegamos na fase em que saímos da zona de conforto de atender em consultório para atender online, dividindo parte de um ambiente seu, de descanso, para tornar ele um ambiente de trabalho. Além disso, a própria adaptação de horários foi bem difícil no início e depois de um ano ainda é extremamente cansativo, mas me adaptei e criei estratégias para lidar com isso. Passamos a atender demandas de pessoas que trabalham na linha de frente, acolher profissionais e pessoas que de alguma forma foram afetadas emocionalmente com a pandemia.”

Negros na psicologia
De acordo com o último levantamento do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômico), feito em 2014, os profissionais negros psicólogos somam 24.162 (16,5%). O número de estudantes que no último dado estava cursando psicologia no ensino superior era de 4.294.331 negras(os), do total 9.766.410.

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