Escritora Capixaba cria história para personagem negra silenciada por Clarice Lispector

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A escritora ucraniana naturalizada brasileira, Clarice Lispector (1920-1977), é considerada uma das autoras mais importantes do século XX para a literatura. De escrita singular e forte, ela escreveu romances, contos, crônicas e até literatura infantil. 

Em 1964, Clarice Lispector publicou o romance A paixão segundo G.H., obra que conta a história de uma mulher branca bem sucedida que não tem nome e nem conhece sua própria personalidade. Após demitir a empregada doméstica, G.H resolve fazer uma faxina no quarto da funcionária, onde encontra uma barata. A partir disso, a história se torna uma profunda reflexão existencial.

A Paixão Segundo G.H., é considerada uma das obras mais profundas e inquietantes da autora. Entretanto, essa mesma obra recebe diversas críticas de caráter racial e social.

Dentre as críticas está a animalização da empregada doméstica Janair, que é negra e na narrativa é comparada com animais. Também aponta-se o silêncio e apagamento desta mulher negra pois a patroa é a narradora da história e quem fica encarregada de apresentá-la e defini-la. Além disso, Lispector é acusada de usar um vocabulário que evidencia o distanciamento social e humano entre G.H e Janair.

Tamyres Batista, autora de Caderno de Receitas de Janair/Foto: Douglas Bonella

Diante disso, a escritora capixaba Tamyres Batista resolveu dar voz e protagonismo à personagem de Clarice Lispector na dramaturgia Caderno de Receitas de Janair. Tamyres tem 22 anos, é formada em Ciências Sociais e integra o coletivo Elas Tramam, núcleo de dramaturgia do Espírito Santo formado por mulheres, coordenado pela encenadora e dramaturga Nieve Matos.

Caderno de Receitas de Janair é uma narrativa da própria empregada doméstica silenciada, que outrora não teve a oportunidade de se mostrar engraçada e afetuosa.



“Esta dramaturgia é inspirada em Janair, personagem apagada pela escrita feminina e brankkka de Clarice Lispector. É um exercício, que se esforça em imaginar sua voz e história, a fim de recolocar em protagonismo, sua memória, desejo e sonho, é também um passeio íntimo-coletivo nas paisagens de grande parte das mulheres negras que foram, são ou infelizmente serão empregadas domésticas.”, escreve a autora na apresentação.

Notícia Preta: A partir de quando você se entende como escritora?

Tamyres: “Eu escrevo histórias desde criança. Na 4ªsérie eu ganhei um concurso de poesia. Já tivevários diários, mas foi no ensino médio, quando eu tive contato com pessoas que falavam que o que eu fazia era literatura, era poesia, entendi-me como escritora. Devo muito aos meus pares, que são os meus amigos e os meus professores. Essa ideia de ser escritora não vinha a minha mente. Aconteceu quando eu fui me construindo na adolescência e juventude”.

NP: Por que resolveu escrever sobre Janair, personagem de Clarice Lispector?

Tamyres: Eu sempre fui uma leitora sagaz. Quando criança, minha mãe era técnica administrativa de uma escola e eu ficava com ela na biblioteca durante as férias. Então eu sempre fui informada pela literatura clássica brasileira, pela literatura hegemônica, que é uma literatura branca e masculina, apesar de ter algumas mulheres brancas, mas seu padrão é esse. 

A Clarice Lispector foi uma referência para a minha juventude. Eu lia os livros dela e tinha toda uma áurea de excelência sob sua escrita. Quando li A Paixão Segundo G.H. realmente achei interessante, literariamente falando. Mas eu fiquei muito incomodada com o mote do livro: uma mulher branca rica que despede a empregada domésticanegra e começa a limpar a casa. Clarice fala daJanair de uma forma muito negativa. Tem algumas descrições muito ambíguas. A Janair precisava de uma história. Inicialmente eu pensei em criar um conto, mas quando tive a oportunidade de entrar no Elas Tramam eu tive a ideia de trazer a Janair em peça de teatro.

Tamyres Batista/Foto: Taynara Batista


NP: De que forma você como autora descreveria a sua Janair?

Tamyres: A Janair é uma mulher negra e gorda, que veio de uma cidade do interior e trabalha muito. Tem uma linha familiar de mulheres que também trabalharam em casas de família. Ela ama outra mulher, a Sandra, que também é empregada doméstica. 

A peça conta sobre o último dia de trabalho deJanair. Eu parto deste último dia para contar a história da Janair e de Sandra, que estão se despedindo dos seus trabalhos para construírem uma família e viverem o amor delas. 

NP: Quais são os (as) escritores (as) ou figuras que te inspiram?

Tamyres: Minha escrita é muito atravessada pela literatura negra. Eu posso citar Conceição Evaristo, Toni Morrison e Grace Passô. Dentro da literatura brasileira, Guimarães Rosa. Na literatura fantástica, Isabel Allende e Gabriel García Márquez. Indo além de referências famosas, gostaria de falar de amigos que são minhas referências poéticas, com quem eu compartilho minha escrita e são figuras do cenário cultural capixaba. São eles: Jaiara Dias, poeta negra, Gessé Paixão e Douglas Bonella, poetas negros, Laíssa Gamaro, Thairiny Alves, pessoas que fazem parte do meu processo de escrita e da minha vivência.

NP: Existe um público-alvo para sua escrita? Ou públicos?

Tamyres: A minha proposta de escrita é afetivamente direcionada às pessoas negras. Ainda que não tenha sempre a temática negra, a minha proposta de vida é que a escrita de pessoas negras cheguem às outras pessoas negras, para que a gente possa se ‘alimentar’ e possa ter referências nonosso cotidiano. Entretanto, também acho que minha escrita pode ser importante para qualquer outro público.

Caderno de Receitas de Janair faz parte do e-book Outras Tramas, disponível gratuitamente para download em: https://elastramam.files.wordpress.com/2019/12/outrastramas__ebook.pdf

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Samily Loures

Baiana em terras capixabas, é formada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). Com atuação em publicidade social e pesquisa em Identidade Negra, acredita que a comunicação pode ser instrumento de mudanças sociais. Apesar de militante e sagitariana, consegue levar a vida com serenidade. E deboche.

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