Enquanto o desemprego aumenta, a saúde diminui

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Com o celular na mão, à procura de alguma coisa que me desperte interesse, e a TV ligada em uma programação qualquer, olho para o relógio que já marca 2 horas da manhã e a única coisa que penso é: “Ainda é cedo, não são nem 3h”.  Eu poderia estar descrevendo um momento especifico de insônia ou, talvez, um dia em que pudesse dormir até mais tarde na manhã seguinte. Porém, esse comportamento se tornou uma rotina há, pelo menos, um ano.

Vez ou outra, essas madrugadas são interrompidas pelo ritmo acelerado do meu coração, pela inquietude e respiração ofegante que se juntam as minhas mãos tremulas e suadas. Depois de alguns minutos, essas sensações vão embora e tudo está normalizado. O dia amanhece, acordo por volta das 12h, horário que passei a levantar após me ver desempregado, sigo enviando alguns currículos e escrevendo e-mails.

Talvez você se pergunte o que tem de errado nisso ou ache esses horários e sintomas comuns. Isso acontece porque não estou sozinho. Na verdade, faço parte de um grupo de 54% de desempregados que apresentam alteração no sono e 70% de desempregados com sentimento negativo, como a ansiedade. Esses dados fazem parte do levantamento realizado em todas as capitais brasileiras pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), divulgado em abril de 2018.

A ROTINA

Respira fundo, troca o layout do currículo, arruma o portfólio e envia o e-mail. Agora vai dar certo.

Não deu!

Muda a plataforma, produz conteúdo, manda mensagens, envia currículo. Dessa vez vai.

Ainda não!

Busca telefones e e-mails de empresas em todos os lugares possíveis, faz a ligação, cadastro, oração. 

Outro não. Outros nãos!

Chama no inbox, mostra seu material e pede pra o indicarem, caso saibam de alguma coisa.

“Opa, se souber falo sim. Pode deixar”

Mais um mês e as noticiais de pessoas desempregadas não param de subir. Um amigo atualiza o LinkedIn, com seu novo cargo, em uma nova empresa, deixo o meu like, mas me pego pensando “Como foi que eu não vi que essa vaga estava aberta? Preciso ficar mais atento.” É uma corrida, que para 63% dos desempregados, é angustiante. Como a pesquisa, também, aponta.

Enquanto repito a rotina com horários desregulados, algumas vezes sentimentos de ansiedade, angustia e envios de currículo, percebo que minha vontade de sair também se vai. Confesso que sempre fiz o estilo caseiro, mas o pouco que saía, já não faço mais.

Quadro natural para esse momento, que me coloca em outro pacote. O dos 57% de desempregados que sentem menos vontade de sair de casa e dos 21% que reconhecem que têm se mantido mais recluso e afastado das pessoas.

Sim, o desemprego também alterou minhas interações interpessoais. Talvez a falta de estimulo esteja ligada a isso. Talvez, em casa seja o lugar onde eu me sinta mais confortável com minha atual situação. Ou, talvez, seja medo de me sentir estagnado enquanto o mundo continua girando e as pessoas vivendo. 

Faço novos cursos, me preparo, texto meu inglês, me candidato a uma vaga, ou melhor várias vagas e consigo, finalmente depois de meses, uma entrevista por telefone. É como se toda a esperança tivesse sido renovada e eu pronto para encarar a nova tapa. Passei no primeiro teste, passei no segundo, agora chegou a vez de me apresentar presencialmente.

Se você não é uma pessoa negra e está se identificando com o texto até aqui, possivelmente, é neste ponto que o nosso caminho começa a se separar.

Pra entender a situação que precede o que se passa na minha cabeça antes de uma entrevista, é preciso saber como anda o cenário empregatício brasileiro. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em novembro de 2017, 64,6% dos desempregados são negros. Vale dizer que esse grupo, o qual faço parte, também recebe os menores salários.

Em média, negros ganham R$ 1.200,00 a menos que pessoas brancas. O dado é da Pesquisa Nacional por amostra de domicílios trimestral do IBGE, realizada entre os anos de 2012 e 2017.

Meu questionamento diante desses números é bem simples: “Se negros ganham menos, ou seja saem mais baratos para as empresas contratantes, por quê somos os menos contratados?”

A ENTREVISTA     

Tomo todos os cuidados que qualquer outro candidato de processo seletivo. Vejo dicas, leio matérias, me informo sobre a empresa, tenho a explicação de todo o meu currículo muito bem planejada, tenho experiência. Estou pronto! Exceto pelo fato de que ainda sou negro.

Como traço característico de minha negritude, tenho cabelos crespos, que vi crescer, pela primeira vez, depois dos 20 anos. Quando digo crescer, é apenas não raspar zero. Segue menor, ou do mesmo comprimento, que a maioria dos cabelos lisos masculinos no Brasil. No entanto, quando várias pessoas, com o poder de te empregar, começam a falar com você olhando para a sua cabeça e não para os seus olhos, uma mensagem é passada. Mas há quem, não satisfeito, prefira verbalizar esse “descontentamento”.

“Se você fosse loiro do olho azul te colocava na Globo. Mas assim, tem que ficar na rádio.” Uma das frases que me disseram durante uma entrevista.

Eu diminuí as pontas do cabelo, mas não fui contratado. Isso aconteceu por diversas vezes durante esse período de desemprego. Reconheço que, em certos casos, meu desempenho nas entrevistas foi raso e não mereci passar, outras vezes foi na média. Mas durante inúmeras tentativas, saí da sala do processo seletivo sabendo que tinha ido bem e que minha experiência correspondia com o que era exigido.

Não fui contratado.

Cito essas ultimas experienciais não como forma de menosprezar ou invalidar outras vivencias, afinal os números iniciais estão aí e não fazem um recorte racial. Mas sim, para destacar outro fator, a outra etapa que marca a população negra, nesta máquina que seleciona pessoas e, muitas vezes, ignora a saúde metal e física dos que não possuem a carteira assinada.  

Dito isso, depois de muitas tentativas, amanhã começo um emprego temporário. Será minha primeira vez na área que me dediquei a estudar durante quatro anos. Gostaria que todos tivessem essa oportunidade, mas sei que, na atual conjuntura brasileira, será cada vez mais difícil. 

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Jader Theóphilo

Jornalista formado pela Puc-MG. Atua como produtor de conteúdo e colunista semanal na Revista Zint, com foco em assuntos culturais. Adquiriu experiência com apuração e produção de jornais da Record TV Minas, atuou como apresentador, repórter e produtor, na PUC TV. Além disso, participou da produção de 3 programas semanais, na TV Horizonte, e foi analista de mídias sociais, na Horizon.

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