Dois anos após caso George Floyd, policiais seguem sem julgamento e especialistas analisam o cenário atual

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Completando dois anos do assassinato do norte-americano George Floyd, o Notícia Preta conversou com a advogada Cristina Tadielo e os consultores em diversiade e inclusão Eliane Leite Alcantara Malteze e Deives Rezende Filho sobre o cenário para pessoas negras após o crime que comoveu milhares de pessoas em todo o mundo. 

A comunidade de Minnesota criou um memorial em homenagem a Floyd – Foto: AFP

Para a advogada e educadora Cristina Tadielo, à luz da justiça, não existe reparação em casos como o de George Floyd. “Atribuir o termo justiça a casos de extrema violência e atentado contra vidas é algo ainda distante do que se pode conceber em termos de humanidade. A extensão da justiça e sua complexidade incorporam questões de direitos à vida e a violação deles. Pensar na justiça em termos rasos talvez, frente ao ocorrido, pode-se dizer que foi feita”, afirma. 

Ela ressalta ainda que, em termos de humanidade, crimes como este são socialmente dolorosos. “Vidas quando atentadas, executadas, violentadas e excluídas ferem toda a coletividade humana. Fato é que uma sanção a um ato criminoso foi imputada e deve ser rigorosamente cumprida”, analisa. 

Caso Beto Freitas

Em paralelo com a morte de Floyd, menos de um ano depois, e um dia antes da celebração do Dia da Consciência Negra, Beto Freitas foi espancado e assassinado em um supermercado de Porto Alegre (RS). Tadielo lembrou que casos de racismo estrutural continuam acontecendo e os praticantes dos atos possuem a certeza da impunidade. “O assassinato de João Alberto Freitas, por exemplo, demonstra que a verdadeira justiça ainda está por vir e não se sabe quando. As referências não se dão no sentido de comparar se uma morte é mais dolorida do que a outra, afinal são todas perdas violentas e irreparáveis”, enfatiza.

Cristina Tadielo lembra que a justiça ainda não foi realizada – Foto: Arquivo Pessoal

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Cristina finaliza dizendo que existe um vácuo da capacidade jurídica e social diante da realidade violenta que as pessoas negras passam cotidianamente. “A justiça punitiva precisa ser eficaz, pedagógica e servir como pilar de reestruturação social. Servir como pontos de partida para que se viva na genuinidade dos direitos humanos. É preciso, além da sensação de alívio, ter a certeza que paira coletivamente uma justiça eficaz e provedora de vida”, conclui. 

O negro e o mercado de trabalho

Após o violento assassinato de George Floyd, grandes empresas iniciaram um movimento de contratação de pessoas negras, com processos seletivos exclusivos para o público negro. Eliane Leite Alcantara Malteze, pedagoga e matemática, uma das fundadoras da UZOMA diversidade, consultoria especializada em Diversidade e Inclusão, afirma que, em sua grande maioria, as vagas têm sido preenchidas por pessoas negras, no entanto, ainda existem barreiras a serem rompidas. “As organizações precisam criar métricas mensuráveis de diversidade e inclusão. Diversidade e inclusão tem que estar nas metas das empresas, as lideranças precisam estar envolvidas neste processo e não pode ficar sob a responsabilidade dos comitês de diversidade”, alerta.

Eliane Malteze ressalta que a mentalidade das empresas está mudando – Foto: Tiago Hernandez

Ela lembra ainda que será necessário um tempo para que as tomadas de decisão, por parte de pessoas negras, sejam efetivamente colocadas em prática. “Ainda estamos num processo de construção de espaços dentro das organizações. O crescimento dos programas de trainee é um passo fundamental para que as pessoas negras possam construir uma carreira e chegar na liderança dentro da organização”, comenta. 

Por outro lado, Deives Rezende Filho, especialista em ética, D.I, e CEO da Condurú Consultoria, lembra que, em diversos espaços que ele frequenta, ainda é o único negro presente nas reuniões. “Eu costumo ter uma resposta para isso quando sou chamado para uma reunião e as pessoas me mostram dados satisfatórios da porcentagem de negros empregados naquele lugar. Pergunto porque nenhum deles está participando daquele encontro onde está – normalmente – toda a diretoria”, afirma.

Além disso, Deives completa dizendo que os assassinatos de Floyd e Beto Freitas realizou um movimento de tirar as empresas de cima do muro e obrigou-as a se posicionarem. “Agora, quem não diz nada, compactua, endossa. E se você ou sua organização são contra o que aconteceu, devem se manifestar. As organizações sérias querem mudar a forma como tratam os seus colaboradores, consumidores e fornecedores. É um caminho sem volta, e não um modismo. Ou as organizações entendem que essa é a agenda e começam a se movimentar, pavimentando um caminho sustentável e perene, ou vão morrer na praia”, conclui.

Deives Rezende diz que raramente encontra outros negros em reuniões que participa – Foto: Divulgação

Segundo Eliane, a entrada de mais mulheres negras em conselhos das grandes empresas também têm impulsionado esta mudança. “ESG, diversidade são prioridades para os investidores, e tem impulsionado as mudanças. O comportamento do cliente e a forma como fazemos negócios, juntamente com novas questões ambientais, sociais e de governança (ESG), alteraram a forma como os investidores percebem sua organização, no que refere à diversidade e inclusão”, finaliza Eliane. 

Punição

Chauvin Dereck, ex-policial que assassinou George Floyd foi condenado a 22 anos e meio de prisão pelos crimes de assassinato e por violar os direitos civis de um cidadão norte-americano. Os outros três agentes envolvidos na operação ainda não foram julgados. 

Em uma manobra para redução de pena, o ex-policial Thomas Lane se declarou culpado como auxiliar no crime de homicídio. Já os dois outros policiais envolvidos no caso, Tou Thao e J. Alexander Kueng, devem ser julgados em junho.

Floyd morreu em 25 de maio de 2020, asfixiado depois que Chauvin permaneceu quase 10 minutos com o joelho sobre o pescoço da vítima. Chauvin tinha um histórico de uso excessivo de força.

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor do Notícia Preta.

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