Quase um terço da renda das famílias brasileiras já está comprometido com o pagamento de dívidas, reduzindo a capacidade de arcar com despesas básicas e imprevistos. Em janeiro, esse índice chegou a 29,33%, o maior desde o início da série histórica, em 2005, segundo dados do Banco Central divulgados nesta semana.
O indicador mede quanto da renda mensal é destinada ao pagamento de dívidas, como cartão de crédito, empréstimos e financiamentos. Na prática, isso significa que, a cada R$ 1.000 recebidos, cerca de R$ 293 já estão comprometidos antes mesmo de cobrir gastos essenciais como alimentação, transporte e moradia.
Do total da renda direcionada às dívidas, 10,48% correspondem apenas ao pagamento de juros, enquanto 18,85% são destinados à quitação do valor principal. O peso dos juros nesse cenário reflete o alto custo do crédito no país, especialmente para pessoas físicas.

O nível de endividamento das famílias também se mantém elevado. Em janeiro, 49,7% da renda estava vinculada a dívidas, com aumento de 1,1 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior. Já a taxa de inadimplência chegou a 6,9% em fevereiro, indicando crescimento no número de pessoas que não conseguem cumprir seus compromissos financeiros.
Esse cenário é agravado pelas altas taxas de juros cobradas no país. Nas operações de crédito para pessoas físicas, a média chegou a 62% ao ano. No caso do cartão de crédito rotativo, uma das linhas mais utilizadas em situações de aperto financeiro, os juros ultrapassaram 435% ao ano.
Para o trabalhador, isso se traduz em dificuldades no dia a dia. Quando uma parte significativa da renda é destinada ao pagamento de dívidas, sobra menos dinheiro para despesas básicas e para a construção de uma reserva financeira. Em muitos casos, a saída encontrada é recorrer a novas linhas de crédito, o que pode ampliar o ciclo de endividamento.
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Dados do Banco Central mostram que o crédito às famílias segue em expansão, alcançando R$ 4,5 trilhões em fevereiro. Esse crescimento indica aumento na busca por empréstimos e financiamentos, mesmo em um cenário de juros elevados.
Especialistas apontam que o impacto do endividamento tende a ser maior entre famílias de menor renda, que possuem menos acesso a crédito com taxas mais baixas e menor capacidade de absorver aumentos de custos. Nessas situações, o peso dos juros compromete ainda mais o orçamento e amplia a vulnerabilidade financeira.
O spread bancário, que representa a diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada dos clientes, chegou a 22,1 pontos percentuais. Esse indicador ajuda a explicar por que o crédito no Brasil segue entre os mais caros do mundo, influenciando diretamente o nível de endividamento da população.









