Como é trabalhar aí?

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Por Elisângela Souza

A versão 4 da planilha sobre trabalhar com publicidade no Brasil está de volta – e ela é mais importante do que parece. 

Um documento de iniciativa anônima, envolvendo o mercado publicitário do Brasil que mistura opinião, comparação e pesquisa, além de expor profissionais e práticas nem tão profissionais assim, chega em sua versão 4 e foi divulgado no último dia 21 de julho.

Quando se busca “agências de publicidade” no Google, a maioria esmagadoras de imagens são de pessoas brancas, como o exemplo da foto acima – Crédito: Guia do Estudante

Tendo sua primeira versão em 2016, o documento é muito mais que uma série de reclamações sobre as principais agências publicitárias do país, é uma mostra real do segmento mais importante da comunicação publicitária, que forma opinião pública, impacta consumidores e representa o branding de grandes marcas nacionais e internacionais.

Gestores de grandes agências como Publicis Brasil, África, Lew’Lara\TBWA, Fleishman Hillard e outras ainda se posicionam exercendo o modelo de gestão e poder, sem responsabilidade sobre a carreira e a performance do seu time. Casos de racismo, assédio, micro-agressão e viés inconsciente em pleno século 21 ainda são replicados neste ambiente de trabalho.

No documento “Como é trabalhar aí?”, uma Diretora de Conta da agência Fleishman Hillard foi chamada de preconceituosa e racista. Quando viu sua reputação, não entendeu o motivo. Talvez porque esqueceu quando xingou, gritando no meio da agência, a funcionária do financeiro de “Neguinha pé de morro”, relata uma ex-funcionária.

Outro caso constrangedor relatado foi de uma das proprietárias da agência Happy House que disse para todos ouvirem: “não sei como gente gorda é feliz“

Na agência Mutato, o documento cita que “a diversidade está só no discurso, a liderança é toda de pessoas brancas, a grande maioria homens“.

Vivemos, atualmente, o momento em que minorias estão conseguindo abrir brechas nessa indústria após décadas de exclusão. Marcas globais, como Adidas, Nike, Netflix, YouTube, Viacom e Disney engajadas com essa pauta mostram amplo apoio público ao movimento Black, na sequência dos protestos que surgiram das recentes mortes de George Floyd, Beto Freitas, entre outros.

Dentro das agências, funcionários negros são céticos quanto a essas mudanças, as discussões sobre racismo na indústria estão longe de ser novas, acontecem internamente há anos. A grande maioria permanece predominantemente branca e patriarcal, principalmente no nível de executivos. Para as mulheres negras das agências, a micro-agressão pode parecer dez vezes maior, é comum serem rotuladas como “excessivamente ambiciosas ou agressivas demais” pelos líderes.

É imprescindível que as empresas, como prestadoras de serviços à sociedade, comuniquem suas opiniões. “As marcas precisam representar seus consumidores, que são multiculturais, têm diversas origens e consomem seus produtos”.

Elisangela Souza é publicitária, gestora de projetos culturais e engajada em pautas sociais. Atualmente, vive em Lisboa, Portugal, escreve sobre temas relativos a impacto social, diversidade, equidade & inclusão.

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1 Comment

  • Thereza Souza

    (10/08/2021 - 14:33)

    Acho uma excelente iniciativa a criação do documento, mesmo que de forma anônima. Se as empresas têm o direito de pesquisar sobre o histórico do profissional a ser contratado, pq os profissionais não teriam o mesmo direito? Assim o candidato terá a opção de escolha de se juntar ou não àquela corporação, que talvez não comungue com suas ideologias de vida. Este tipo de documento deveria ser expandido para todo o ramo corporativo!

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