Após policiais invadirem terreiros de Candomblé em busca de Lázaro Barbosa, lideranças religiosas publicam nota de repúdio

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Representantes de religiões de matriz africana de Águas Lindas de Goiás, Girassol e Edilândia, todos em Goiás, denunciam ações truculentas e intolerância religiosa por parte de militares, em ao menos 10 terreiros desde quando o criminoso Lázaro Barbosa, de 32 anos, começou a ser procurado na região. As lideranças religiosas afirmam que os policiais agem com violência, apontam armas e vasculham todas as áreas dos terreiros, até mesmo as restritas.

Neste sábado, 13 lideranças e organizações religiosas fizeram um manifesto em repúdio aos “violentos ataques racistas praticados contra as casas de matrizes africanas na região na tentativa de nos vincular ao foragido conhecido como Lázaro e aos crimes a ele atribuído”. O manifesto diz que “são graves os relatos de depredação dos nossos territórios mediante intimidação e agressões físicas”.

Em um vídeo que circula na internet, o Babalorixá André Vicente de Souza conta que policiais entraram em seu terreiro de Candomblé, agrediram o caseiro, além de quebrar portas e tirar fotos de objetos religiosos.

Segundo Pai André, os militares que buscam pelo homem apontado como o autor da chacina de uma família de quatro pessoas, em Ceilândia (DF), estiveram no terreiro pela primeira vez na terça-feira (15/6). “Na primeira vez que vieram, eles (policiais) bateram no meu caseiro e eu não estava em casa”, contou.

Lázaro Barbosa
Imagens divulgadas pela polícia

Pai André garante que as imagens de símbolos religiosos divulgadas pela polícia como se fossem da casa de Lázaro, são, na verdade, do terreiro comandado por ele. O religioso denuncia que, além das agressões físicas e verbais, objetos religiosos e portas foram quebradas. “Eles já chegaram com agressão e palavras. Eu disse ‘eu já tenho idade para ser avô de vocês’. E eles gritando ‘cala a boca’, dizendo que ‘vai apanhar’ e que quem ‘fala demais..’, não sei bem a expressão”, lembra. O caseiro foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo e delito.

“Estamos sofrendo, neste momento estou falando pela dor de muitas casas, sofrendo invasões constantes de polícias de vários comandos, não dá nem para saber qual, violando nossos sagrados, colocando rifles na nossa cabeça sob acusação de que estamos acoitando o Lázaro”, contou o líder afro tradicional de candomblé Tata Ngunzetala, que lidera mais de 30 casas na região.

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Apenas neste sábado, 19, a polícia invadiu o terreiro liderado por Tata Ngunzetala duas vezes. “Perguntam constantemente qual última vez que vimos Lázaro e nós respondendo o tempo todo que não temos nenhuma vinculação, nem nossas casas, nem nossas tradições com crimes e qualquer situação civil que a polícia e a Justiça têm que dar conta, e não colocar nossas casas e lideranças sob suspeitas”, disse.

De acordo com o manifesto, “As imagens dos alegados ‘rituais satânicos’ que estão sendo divulgadas pela mídia foram produzidas pela própria polícia durante uma invasão e quebra das portas de umas de nossas casas. O que de fato estas imagens retratam são elementos sagrados de nossas divindades, especificamente ligadas ao culto ao Orixá Exu e aos exus guardiães de Umbanda. Estes apetrechos nunca pertenceram ao procurado e nem tampouco guardam relação com o satanismo, referência que não faz parte da cosmogonia e mitologia afro“, diz um trecho do documento.

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