África do Sul: lojas são fechadas após manifestantes protestarem contra anúncio que classifica cabelo de negros como ‘secos e danificados’

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Um anúncio para produtos de cabelo da TRESemmé , marca da Unilever Plc, foi considerado racista na África do Sul, gerou revolta e levou centenas e manifestantes as ruas, nesta segunda-feira (07). O protesto fechou mais de 400 lojas da rede Clicks, que divulgou a propaganda onde aparecia a imagem de um cabelo africano com a descrição “seco e danificado”, enquanto o cabelo do branco era classificado, no mesmo anúncio, como como “fino e liso”.

O comercial, postado no site da Clicks na última sexta-feira (05), provocou reação nas redes sociais e a rede varejista retirou o produto de circulação no mesmo dia.

“Estou profundamente desapontado por termos permitido a publicação de imagens insensíveis e ofensivas em nosso site”, disse o chefe do Clicks, Vikesh Ramsunder, em um comunicado no domingo. “Os funcionários negligentes foram suspensos e nós envolvemos o fornecedor, que agora também emitiu um pedido de desculpas”, disse o presidente-executivo.

Os pedidos de desculpa, entretanto, não foram suficientes e manifestantes liderados pelo partido de extrema esquerda Economic Freedom Fighters (EFF) foram para as ruas exigir o fechamento das lojas do Clicks por pelo menos uma semana.

“Os brancos nos insultam e depois pedem desculpas, acham que acabou. Não vamos mais aceitar desculpas que não sejam acompanhadas de justiça”, disse o líder da EFF, Julius Malema, a apoiadores do lado de fora de uma loja fechada do Clicks em Polokwane, na província de Limpopo. “Quem é punido por projetar os negros como pessoas feias?”, questionou Julius Malema.

Foto / Shiraaz Mohamed

Vídeos compartilhados no Twitter mostram algumas lojas do Clicks fechadas, enquanto outras têm seguranças formando uma linha de proteção em frente aos manifestantes que gritam palavras de ordem . Em outro vídeo, os apoiadores do partido são vistos puxando as prateleiras de uma loja.

A empresa ameaçou com uma ação legal contra o partido político, mas o líder da EFF disse a seus apoiadores para estarem “prontos para o combate” e declarou que a EFF não seria “intimidada por ameaças”.

“As implicações disso são que a identidade negra existe como inferior à identidade dos brancos. É uma afirmação de que os padrões de beleza brancos devem ser absorvidos e as características do negro representam danos, decadência e anormalidade”, disse a EFF em um declaração.

Os membros do partido, que vestem macacões vermelho como demonstração de solidariedade aos trabalhadores, fizeram protestos semelhantes em 2018 contra a varejista de roupas H&M depois que a empresa publicou um catálogo em que um menino negro usava um moletom com o slogan “o macaco mais legal da selva “.

A EFF, formada em 2013 por Malema, sempre adotou uma abordagem populista para se distinguir do Congresso Nacional Africano (ANC), que acusa de se desviar de seus ideais revolucionários. Malema denunciou que o ANC negligenciou a comunidade pobre – principalmente negra – e, em vez disso, representa os interesses das grandes empresas, que são amplamente controladas pela minoria branca. Muitos dizem que o racismo continua enraizado na sociedade sul-africana, mesmo 29 anos após o fim do Apartheid.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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