Afoxé Filhos de Gandhy revisa regra e passa a permitir participação de homens trans no desfile

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Elefante na avenida, durante cortejo do afoxé Filhos de Gandhy, em Salvador – Foto: Fábio Marconi

Após repercussão negativa e críticas de entidades LGBTQIAP+, o Afoxé Filhos de Gandhy anunciou, na noite desta segunda-feira (24), que revisou suas regras e permitirá a participação de homens trans no desfile do Carnaval de Salvador. A decisão veio horas depois da divulgação de um comunicado enviado aos associados, no qual o bloco informava que apenas homens cisgênero poderiam integrar o cortejo deste ano.

Em nota compartilhada nas redes sociais, a diretoria do afoxé informou que o documento inicial foi recolhido e que a nova redação permite a participação de “pessoas do sexo masculino”, sem a exigência de cisgeneridade. “Recolhemos o termo de aceite onde consta a palavra masculino cisgênero, passando a constar apenas do sexo masculino. Quanto à alteração no estatuto, posteriormente convocaremos uma assembleia geral para discutir o assunto”, diz o comunicado assinado pela diretoria.

A mudança de posicionamento ocorre no mesmo dia em que o Ministério Público da Bahia (MPBA) instaurou um procedimento para apurar possível transfobia na regra anterior. Em nota enviada ao portal gshow, o MPBA informou que oficiou o bloco, solicitando esclarecimentos sobre a cláusula do estatuto social. “O MPBA aguarda retorno para adoção das medidas cabíveis”, afirmou o órgão.

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Elefante na avenida, durante cortejo do afoxé Filhos de Gandhy, em Salvador – Foto: Fábio Marconi

Fundado em 1949, o Afoxé Filhos de Gandhy é um dos blocos mais tradicionais do Carnaval de Salvador. Inspirado nos princípios pacifistas de Mahatma Gandhi e na espiritualidade das religiões de matriz africana, o grupo sempre teve a participação exclusiva de homens em seu cortejo.

Nas redes sociais, a restrição inicial gerou intenso debate. A polêmica surgiu após a divulgação de um “Termo de Aceite” que especificava que apenas “pessoas do sexo masculino cisgênero” poderiam ingressar na associação e adquirir o passaporte do bloco. Internautas criticaram a limitação e questionaram o alinhamento da regra com os valores de resistência e inclusão historicamente associados aos blocos afro.

Mesmo sem um pronunciamento oficial inicial sobre o caso, a página do Afoxé Filhos de Gandhy no Instagram recebeu comentários de seguidores em uma publicação sobre o tema do Carnaval 2025, intitulado “Ogum – O Senhor do Ferro, dos Metais e da Tecnologia! ⚔️”.

Um dos internautas comentou: “Tradição binária e colonial não deve ser enaltecida!! É fundamental que os blocos afro e as religiões afro-brasileiras rompam definitivamente com ideais coloniais do processo de cristianização das nossas religiões e raízes estruturais do povo preto!!! Basta de transfobia ou de defesa de uma identidade baseada em genitais!!!!”

Outro escreveu: “A política de exclusão anterior é discriminatória, além de um crime. Para além de nota, é preciso adotar medidas reparatórias e de formação para os sócios do bloco.”

A revisão da regra pelo afoxé atendeu a parte das críticas, mas a questão segue em debate. Enquanto a agremiação sinaliza a possibilidade de uma mudança mais ampla em seu estatuto no futuro, entidades de direitos humanos reforçam a necessidade de medidas concretas para garantir um ambiente inclusivo e diverso dentro da cultura afro-brasileira.

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