Após 53 anos, Aída dos Santos, única brasileira em Tóquio em 1964, recebe seu uniforme olímpico

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Aída dos Santos e o "uniforme que nunca existiu" Foto: Divulgação

Em 1964, Aída dos Santos se tornou a primeira brasileira a disputar uma final olímpica. A atleta nascida em em primeiro de março de 1937 e vinda de uma família humilde do Morro do Arroz, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro era a única atleta em meio a uma delegação composta somente por homens. Sem dinheiro, sem treinador e sem uniforma para competir, Aída participou da Olimpíada e fez história. A atleta voltou com a quarta posição no salto em altura. Foi a primeira brasileira finalista em Jogos Olímpicos.

Como forma de reparação e reconhecimento, Aída recebeu um uniforme que deveria ter usado na época, feito pela rede de produtos esportivos Centauro. “Foi muito importante, porque não tinha esperança nenhuma de receber. Na hora, vieram muitas lembranças, como a do momento em que conquistei o índice e vi que não tinha uniforme para viajar para as Olimpíadas. Foi uma mistura de felicidade e tristeza. Quase mataram a velha”, relembra, aos risos.

A falta de incentivo e recursos sempre estiveram presentes em sua vida, porém nunca foram empecilhos para ter uma carreira vitoriosa. A chave para o sucesso foi seu próprio esforço e dedicação nos treinos, que fazia sozinha muitas vezes observando suas rivais. 

Aída dos Santos competindo nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964 — Foto: Reprodução/COB

O “Uniforme que Nunca Existiu” vem com um collant de treino, jaqueta e calça. Ele foi feito pela estilista do ModAtivismo Carol Barreto, inspirado na trajetória da ex-atleta, e entregue na pista de atletismo do Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foram produzidas 20 peças exclusivas, que podem ser encontradas no site da marca. A receita será revertida para 13 ONGs.

Para além de agradecê-la, a concepção, confecção e entrega do uniforme tem como objetivo valorizar seus feitos, contar sua história e destacar que é preciso fazer diferente. É ainda relembrar que muitas jovens podem percorrer um caminho melhor e menos árduo, com mais inclusão e fomento ao esporte.

Através do esporte, diversas portas foram abertas e a ex-esportista se formou em geografia, educação física e pedagogia. Também foi professora de educação física na UFF (Universidade Federal Fluminense) entre 1975 e 1987. Fundou um instituto com seu nome que promove a inclusão social via vôlei e atletismo, contando, ainda, com reforço escolar gratuito e apoio de psicólogo e serviço social. 

Racismo

Durante toda a carreira no esporte, Aída contou em entrevista ao UOL que sofreu inúmeros ataques racistas. Ainda na escola, montou equipes de vôlei no colégio, e levou esses grupos a campeonatos estudantis. Num dos jogos, ouviu gritos preconceituosos da arquibancada. Esperou a partida acabar e devolveu com classe.

“Era a única negra em quadra e gritaram da arquibancada: ‘Sai daí, crioula. Seu lugar é na cozinha’. Quando terminou o jogo, pedi o microfone e falei: ‘Meu lugar é na cozinha sim, na varanda, no quarto, na sala, mas também na quadra de esporte.”

“Uma vez, na Espanha, as pessoas me apontavam, pegavam no meu braço, perguntavam se eu morava junto aos macacos, esfregaram minha pele para ver se a cor saía”

Conquistas, Prêmios e Títulos de Aída dos Santos:

Campeã Estadual, Brasileira, Sul-Americana e Pan-Americana de salto em altura; 
1964 – Olimpíadas de Tóquio – 4° lugar no salto em altura com a marca de 1,74m; 
1967 – Pan-Americano (Winnipeg – Canadá) – Medalha de Bronze no Pentatlo; 
1968 – Olimpíadas no México ficando na 22ª colocação na prova do Pentatlo; 
1971 – Pan-Americano (Cáli-Colômbia) – Medalha de Bronze no Pentatlo; 
1995 – Homenageada na inauguração da pista de atletismo da UFF (Universidade Federal Fluminense) que tem o seu nome; 
2006 – Troféu Adhemar Ferreira da Silva no Prêmio Brasil Olímpico; 
2009 – Diploma Mundial Mulher e Esporte (Premiação especial do Comitê Olímpico Internacional – COI). 

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