Yalorixá denuncia atentado em terreiro no DF durante a noite de Natal

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Barracão com roupas e imagens religiosas foi incendiado

Durante a noite do dia 25 de dezembro, quando é celebrado o Natal, o templo da Cabocla Jurema, localizado em Sobradinho no Distrito Federal (DF), foi invadido, saqueado e teve parte das instalações incendiadas. Para Maria das Dôres Fernandes Saraiva, 76 anos, também conhecida como Mãe Maria da Oxum, Yalorixá da casa, o incêndio foi uma demostração de intolerância religiosa.

Prestes a completar 50 anos, a celebração aconteceria em janeiro, o Templo Cabocla Jurema é alvo de criminosos. Mãe Maria de Oxum conta que no dia do crime fechou a chácara e foi para casa como de costume. Os criminosos entraram no local durante a noite, roubaram equipamentos de construção e instrumentos musicais usados para as festas, depois atearam fogo no barracão onde estavam as roupas dos orixás, filhos e filhas de santo e as imagens religiosas. O crime foi registrado na 13ª Delegacia de Sobradinho – DF e uma queixa foi apresentada ao Ministério Público (MP).

“A perícia foi lá e falaram que foi intencional, colocaram fogo e queimou a parte das roupas das entidades, dos orixás, tinha muita roupa. Era um quarto grande com bastantes peças dos filhos (e filhas) de santo. Botaram fogo, arrombaram as portas, tomaram suco e deixaram os copos lá. Os vizinhos não são muitos amigos, mas nunca me falaram nada”, afirma a Yalorixá.

Aos 76 anos, Mãe Maria de Oxum tem certeza que o ataque ao templo foi um crime motivado por intolerância com a religião de matriz africana e comenta as dificuldades de seguir a religião no Distrito Federal. “Eles tocaram fogo nas coisas do santo. Se entrassem e roubassem tudo bem, mas eles atearam fogo e no barracão onde tinha tudo. A perícia já constatou que foi criminoso. A gente vai devagar e vai conseguir se reerguer, mas é ruim demais. Até a roupa que você veste as pessoas ficam te olhando “assim”, tá entendendo? É como se tivesse censurando, sei lá o que eles pensam. É muito difícil, tanto que me tornei uma pessoa muito simples, ando com minha roupa “normal”. A gente passa e eles falam “lá vai a macumbeira”, “lá vem o satanás”, então a gente fica meio reprimido”, fala com tristeza Mãe Maria de Oxum.

Carolina Saraiva, 36 anos, filha de santo do templo e neta mais velha de Mãe Maria da Oxum, diz ter se sentido perseguida ao saber do ataque a casa. “É uma dor tão imensa, aviltada, me senti perseguida. Os nossos ancestrais são representados por nós o tempo inteiro, através dos movimentos que a gente tenta fazer de resistir e a acabamos sendo violentadas né? É essa sensação. Sensação de voltar sempre ao passado todas as vezes, retomando aos nossos ancestrais e de nos aproximar ao que eles sentiram. É horrível, uma sensação devastadora”, completa Carolina.

Ataques ao templo

Não é a primeira e vez que Mãe Maria de Oxum enfrenta problemas. Em 2009 a Companhia Imobiliária de Brasília, Terracap já havia invadido o espaço e derrubado as casas de alvenaria. Segundo a Yalorixá, a Empresa estatal do governo Federal e do Governo do Distrito Federal não se importou com uma liminar que impedia e mesmo o terreiro tendo registro houve a derrubada das casas.

“Em 2009 foi derrubado o templo, minha mãe perdeu uma questão para Terracap, o juiz mandou interditar, mas assim mesmo eles derrubaram tudo. Mas, eu continuei na chácara, estamos lá há muito tempo, o templo é registrado em cartório, mas eles derrubaram. Desde que destruíram a minha casa eu fico lá durante o dia e durmo em casa pela noite, mas tranco tudo e nunca deixo velas acesas por lá ter mata”, afirma Mãe Maria.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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