“Há valorização da história europeia, em detrimento das culturas negra e indígena”, diz especialista sobre sul do país

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Durante o carnaval, com o surgimento de comentários nas redes sociais sobre os estados do sul trabalharem enquanto os demais estados do país aproveitam o carnaval, apareceram várias tentativas de uma onda de apagamento da cultura da população negra e indígena dos estados do sul do Brasil

Em entrevista ao Notícia Preta, a Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina, Tatiana Bernardes, comenta essas situações. “O carnaval é um espaço de manifestações da cultura negra e de resistência da população negra do Sul do país. Movimenta o turismo, emprega pessoas e mobiliza o mercado financeiro”, disse.

Foto: Confederação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

Entre as áreas que pesquisa, ela tem como foco a Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) e Literaturas Afro-brasileira e Literaturas de temática das Culturas Africanas e Afro-brasileira.

Tatiana explica que o carnaval e suas manifestações culturais nos três Estados do Sul do país têm uma história consolidada, tradicional, com manifestações festivas com a organização e realização de Desfiles de Escolas de Samba (Agremiações tradicionais das Comunidades), Blocos de Rua, festas tradicionais.

Para a doutoranda não há uma tentativa de apagamento, mas uma valorização da história e cultura europeia, em detrimento da história e culturas da população negra e indígena.

“Em razão do longo período colonial, com a escravidão forçada de mulheres e homens africanas/os, ainda, em função de como se deu o processo de Abolição da escravatura e logo após com a vinda dos europeus para a substituição da mão de obra escravizada com objetivo de alcançar o desenvolvimento da sociedade que nos Estados do Sul a concentração de imigrantes europeus foi maior, desta forma o eurocentrismo torna-se mais forte”, explicou.

Ela cita que Em Santa Catarina, por exemplo, os negros constituem 17% da população Catarinense, e coloca que há uma forte militância dos movimentos negros e sociais em prol do reconhecimento e valorização das manifestações culturais e históricas da população negra com a promulgação de Leis que instituem o direito à terra das comunidades remanescentes quilombolas. Na cidade de Florianópolis há o Quilombo Vidal Martins.

“Em Florianópolis há diferentes grupos musicais, do Rap ao Samba; movimentos de Batalhas de rimas no centro da cidade; Irmandades, Grupos de Cacumbi; Clubes e Sociedades Recreativas, Redutos de Sambas; Escolas de Sambas; Grupos musicais, cênicos e teatrais; Museus Afros, Pinturas e Grafites de personalidades negras catarinenses, a Escola Olodum Sul (escola pan-africana, primeira Escola Olodum fora da Bahia), etc”, disse Tatiana.

Para além do aspecto cultural, os três estados tem conquistas marcantes do movimento negro na legislação. Nos três Estados da região (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), tem Legislações para as áreas Educacionais e Governamentais que envolvem a implantação e implementação de ações afirmativas, um exemplo são as reservas de vagas em Concursos públicos nas Universidades Federais e Estaduais.

“Em Florianópolis, por exemplo, temos a Lei 4446/1994, que institui a inclusão de Histórias Africanas, Afro-Brasileiras e Indígenas nos Currículos das Escolas Municipais de Florianópolis. O município tem uma Matriz Curricular para Educação das Relações Étnico- Raciais na Educação Básica e ainda temos Documentos Orientadores e Diretrizes que incluem as questões da ERER como um princípio que deve atravessar todo o currículo da Educação Infantil, do Ensino Fundamental 1 e 2 e da EJA”, colocou a educadora.

Para Tatiana, há um histórico de lutas e militâncias, mas ainda falta reconhecimento. De acordo com ela, a luta antirracista precisa ser constante para que haja um processo de transformação da sociedade.

“Como nos alerta Barbara Carine, o processo de educação antirracista [..] ‘é notarmos para além da face visível do racismo, aquilo que segue velado/dissimulado, e atuarmos por meio da dimensão pedagógica, construindo os mecanismos de denúncia e reversão desse grande flagelo social, que até os dias de hoje faz o povo preto sangrar no nosso país de várias formas. Na dimensão corpórea diretamente, mas também cultural, psicológica, epistemológica, religiosa, estética, curricular e em tantas outras dimensões’”, finaliza a especialista.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Thayan Mina, graduando em jornalismo pela UERJ, é músico e sambista.

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