Todo mundo (ainda) odeia o Chris 

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Por Maristela R.S. Gripp

“Todo mundo odeia o Chris” é um dos seriados mais vistos no Brasil. A série conta a história da família e do adolescente Chris Rock. Uma família negra americana, pobre, em que o pai tem dois empregos para sustentar a família. Chris é o irmão mais velho e estuda numa escola onde é o único aluno negro e é justamente no ambiente escolar, que ele vai experimentar as situações de racismo que vão acompanhá-lo durante esses anos iniciais da sua vida.  

A escola tem sido até hoje um dos espaços mais nocivos para as crianças negras. É o primeiro lugar onde ela vai descobrir o que é o racismo e que ele deixa marcas. É um processo que começa cedo na educação infantil e segue pelos próximos anos sem trégua e sem a graça de um seriado. 

Maristela R.S. Gripp é Doutora em Estudos Linguísticos, Psicopedagoga  e Professora do Curso de Letras UNINTER /Foto: Divulgação

O acesso à educação nunca foi fácil para a população negra. Na década de 60, Ruby Bridges, uma garota negra de 6 anos de idade, foi a primeira criança negra dos EUA a estudar oficialmente em uma escola destinada para as crianças brancas. A menina precisou ser escoltada durante todo o tempo que esteve na escola, porque corria risco de vida. No Brasil, de acordo com Oliveira (2021), os negros só vão ter acesso à educação a partir do Estado Republicano, por meio do ensino popular e profissionalizante. Entretanto, é só a partir da Constituição de 1988 que se começa a pensar em ações afirmativas para a população negra do país.  

Infelizmente, a escola não é um lugar acolhedor nem seguro para uma criança/jovem negro. Pelo contrário, é na escola que a criança negra vai se ver frente a frente com o que a sociedade produz de pior: o racismo, o preconceito. Geralmente, crianças negras são colocadas nas piores turmas ou convidadas a se sentarem no fundo da sala, pois na visão de alguns educadores “não vão aprender” ou “possuem muitas deficiências”, embora, muitas vezes, nenhuma dessas afirmativas sejam comprovadas cientificamente.  

Os conteúdos apresentados serão sempre aqueles em que os negros são associados à escravidão e ao servilismo. Uma criança negra dificilmente vai se ver num livro didático ou vai ser a escolhida para representar a escola num evento oficial. Além disso, ela vai sofrer ataques quase diários com apelidos ou xingamentos relacionados a sua cor, cabelo, traços, enfim, um verdadeiro tormento que ela vai ter que vivenciar, na maioria das vezes, sem a ajuda nem acolhimento dos profissionais da escola. Os professores farão “ouvidos de mercador” diante das agressões praticadas. Alguns até dirão que “é coisa de criança” e seguirão em frente com suas aulas, ignorando solenemente o sofrimento das crianças negras atingidas. Isso, quando eles mesmos, os professores negros, não são também alvo dessas agressões. 

Os sentimentos de vergonha e inadequação social vividos por uma criança negra na fase escolar vão acompanhá-la por muitos anos. Para a psicanalista Isildinha Baptista (2011), a vergonha tem sua origem no social e coloca o sujeito em confronto com a violência e a impossibilidade de reagir. Por isso, é impossível esquecê-la, pois ela está inscrita no sujeito como uma lembrança de dor e como experiência traumática inscrita no seu próprio corpo. Dessa forma, podemos concluir que a criança negra se vê condenada a carregar na própria existência a marca da inferioridade social, que lhe é imposta como uma marca a ferro.  

Nesse sentido, é preciso destacar o fato de que a formação docente ainda é bastante deficiente nesse quesito. Os futuros educadores saem dos cursos de licenciatura sem discutir as questões relacionadas ao racismo estrutural existente no Brasil e sobre como tratar dessas questões no dia a dia em suas salas de aula. Não podemos esquecer que a escola é o reflexo de uma sociedade racista e preconceituosa, um resultado de 400 anos de escravidão! Por isso, o educador tem a responsabilidade de pesquisar e estudar sobre a história da África e do negro no Brasil, a fim de criar condições para fortalecer e desconstruir o racismo que tem nos impedido de avançar como uma sociedade plural e inclusiva. 

Os seriados são feitos para divertir e entreter, mas a vida real precisa oferecer mais. Precisa dar condições iguais para que todos possam viver suas vidas com dignidade, respeito e oportunidades iguais, independentemente da cor da sua pele.   

*Maristela R.S. Gripp é Doutora em Estudos Linguísticos, Psicopedagoga  e Professora do Curso de Letras UNINTER 

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