“Todas as mães deveriam ter um dia de folga”, diz Gabriela Dias, protagonista do filme “Vale Night”

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Como é a vida de um casal afrocentrado com uma criança pequena e que quer sair um pouco da rotina e curtir um baile? Esse é o enredo do Filme “Vale Night”, que será lançado no próximo dia 17 de março. O Notícia Preta conversou com a atriz Gabriela Dias, protagonista do filme, que interpreta a Daiana: uma mulher negra, que ganha um “Vale Night” e vai curtir um baile, enquanto o filho fica com o pai. 

Tia Má e Gabriela Dias – Foto: Fabio Braga/TeTo, Luis Pinheiro – DIVULGAÇÃO.

Gabi Dias, como é carinhosamente chamada, lembra que ela e a personagem são bem parecidas. “Eu encontro vários pontos em comum com a Daiana, mas diria que essa identificação ganhou mais força, depois que eu, Gabriela, engravidei. Daiana foi mãe na adolescência, tem outras questões, outras dificuldades, uma realidade que, em partes, eu não vivo”, afirma. 

Ela ressalta ainda que os medos de uma gestação permeiam a vida de todas as mulheres negras. “Por sermos pretas e jovens, tive medo. Me vi naquela situação.  Medo da responsabilidade de gerar uma vida, medo do que as pessoas diziam negativamente sobre a maternidade, medo de não conseguir trabalhar, de amigos se afastarem, medo de não ter rede de apoio, medos que, felizmente, ficaram só na imaginação. Pensei muito na Daiana durante a gravidez. Hoje meu filho tem 1 ano e 6 meses, e afirmo que foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Sem dúvida”, comenta. 

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Gabi também lembra que sair com as amigas chega a ser uma terapia e todas as mães merecem um momento só delas e uma “rede de apoio” é extremamente necessária para a saúde mental da mulher negra. “Na teoria, todas as mães deveriam ter direito a um “vale night” mas, na prática, sabemos que não é assim que acontece. Mães pretas, na maioria das vezes solo, adolescentes, não têm com quem deixar o seu filho. A ‘rede de apoio’  muitas vezes fica só na teoria mesmo. Não é uma questão de querer, é de precisar. Você precisa sair, ter o seu espaço, pensar em você, estar com amigos. E falo de coisas básicas, como ir ao banheiro, poder tomar um banho tranquila, enfim. Crianças são muito intensas. Ser mãe é intensidade o tempo todo. A liberdade de viver não deveria vir em forma de ticket”, pontua. 

Responsabilidade paterna

Em determinado momento do filme, Vini, interpretado pelo ator Pedro Ottoni, perde a criança no baile, mas Daiana não fica sabendo do ocorrido. Para Gabi, essa é uma situação inimaginável e enxerga esta situação como uma tragédia. “Na época em que gravamos o filme, eu não tinha filho. As memórias afetivas que eu trabalhava eram situações que eu imaginava e visualizava. Trabalhava com um bebê, automaticamente você se responsabiliza por aquela criança, então, isso me ajudava em cena. Mas, mesmo assim, era algo que a Gabriela não podia tatear. Hoje, com meu filho, me colocando nessa situação, imaginando a possibilidade disso acontecer, a ansiedade já bate”, comenta. 

Gabriela Dias e Pedro Otoni – Foto: Fabio Braga/TeTo, Luis Pinheiro – DIVULGAÇÃO.

Ela lembra ainda que o machismo cobra muito mais da mulher e o medo de perder o filho é “assustador”. “Você já está com medo, você se sente incapaz, acha que a culpa é sua, porque sim, o machismo consegue fazer com que você acredite que a culpa é sua. E pra piorar, ainda tem o julgamento das pessoas, as críticas, o medo das várias possibilidades de acontecer alguma tragédia com o seu filho. O que eu posso dizer,  é que eu não desejo isso pra ninguém. Acho que um bom exemplo, é a forma como o Vini (Pedro Ottoni) fica quando ele perde o bebê. Imagino que seja algo parecido com isso”, afirma. 

Elenco preto

Além de Gabi Dias, o elenco conta também com as presenças de Pedro Otoni, Yuri Marçal, Linn da Quebrada, Zezé Motta, Tia Má, além de vários outros artistas negros e ela diz que é empolgante. “Há 9 anos, eu e minha mãe, Kenia Maria, lançamos uma WebSerie ‘Tá bom pra você’, que debatia a ausência do preto na televisão e publicidade, e ver que hoje meu primeiro longa metragem é com um elenco quase 100 % preto é muito gratificante”, celebra. 

Ela informa ainda que as artes atuais, indiferente do segmento, foram manipuladas, realizadas por pessoas brancas e para pessoas brancas, mas o cenário tem mudado. “Acredito que existem dois tipos de artes. Antes da era colonial, e pós era colonial. As artes que vivemos atualmente, infelizmente, foram completamente manipuladas, e assim dirigida, e quase que ‘exclusiva’ para pessoas brancas. Se não fosse um movimento interno, politico, preto, provavelmente, não chegaríamos nem perto da televisão. O fato é que existe uma pressão externa, é necessário contar outras histórias. histórias reais! As artes são extremamente importantes para atingir a população de forma eficaz. Ela te instiga, te toca, te ensina. É um dos meios mais abrangentes que existem, mais eficientes”, completa.

Ela finaliza falando da expectativa  e faz um convite a todos para assistirem o filme e absorverem a mensagem. “Estou ansiosa pelo resultado! Tenho expectativa de que a mensagem passada, seja realmente atingida. Sinto uma grande responsabilidade por fazer parte de um elenco tão significante. Trabalhei com atores e atrizes incríveis, e que  ainda vamos ver por muito tempo na televisão. Feliz por fazer parte do cinema brasileiro. Quero que chegue nas meninas pretas que estão na mesma situação da Daiana, nos meninos pretos que estão na mesma situação do Vini. Acho importante debater esse assunto, e fazer isso de uma forma leve, engraçada. Dia 17 de março vamos contar essa história! Espero  todos vocês nos cinemas”, conclui.

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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