Reverência à ancestralidade angolana é tema escolhido pelo Ilê Aiyê para o carnaval 2023

ile-aiye-na-liberdade.jpg

Um dos blocos afro mais tradicionais do Brasil, o Ilê Aiyê, de Salvador (BA), homenageia o centenário de Agostinho Neto no Carnaval deste ano. O médico, escritor e político conhecido como Manguxi, foi presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e responsável pela libertação do povo angolano.

Música, dança, vestuário, ilustrações e até projetos pedagógicos são as formas de expressão que colocam o Ilê como referência na afirmação do povo negro, na luta contra o racismo e na busca pela igualdade. O sábado será marcado pelas bênçãos ao Ilê, em um ritual com cânticos para os orixás, ao som da percussão dos tambores que sobem a ladeira do Curuzu.

Noite da Beleza Negra em Salvador – Foto: Gabriel Oliveira Yjalade

Pombas brancas dedicadas a Oxalá farão parte da cerimônia, conduzida pela ialorixá que está à frente do Terreiro Ilê Axé Jitolú, mãe Hildelice dos Santos. É o início do reinado da Deusa do Ébano 2023, Dalila Oliveira, que desfila ao lado das princesas eleitas na 42º Noite da Beleza Negra, Carol Xavier e Larissa Valéria. 

A noite da beleza negra: Concurso Deusa do Ébano

A noite da beleza negra foi criada com o objetivo de valorizar a mulher negra. Em um contexto de belezas femininas representadas por corpos brancos e de homens negros que tinham que carregar o estereotipo da marginalidade, foi criado o Concurso da Deusa do Ébano.

O evento veio para ensinar às mulheres sobre autoestima, reconhecimento e identidade. A predominância do bloco era de mulheres, estas que sonhavam construir uma imagem, aparecer, se vestir para se sentir bem, e carregar o título de deusa. 

Dalila Oliveira é a a Deusa de Ébano – Foto: Reprodução/Instagram

O bloco que ressignifica o povo negro da Bahia

A tradução livre para Ilê Aiyê, é Mundo Negro ou Casa de Negro. O Ilê, veio da  iyalorixá Mãe Hilda Jitolú, então moradora da rua do Curuzu, logradouro que virou bairro em 2017 e ganhou projeção internacional graças à cultura do povo negro. Mãe Hilda acolheu, conduziu e contribuiu com a trajetória do bloco feito por negros que mais marca o Carnaval da Bahia. 

Leia mais: A série “A Roda: Raízes do Samba’ fala sobre os papéis de Rio-Bahia nos gêneros musicais brasileiros

O Carnaval de Salvador é dividido em dois tempos para o povo negro: Antes e depois da criação do Bloco Afro Ilê Aiyê. Ele foi fundado em  novembro de 1974 e desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1975. O berço do movimento foi o Terreiro Ilê Axé Jitolú, que passou a funcionar como um clube de encontro de amigos, no bairro da Liberdade, em Salvador, há quase 50 anos.

O Ilê nasceu de uma mulher preta. Uma mãe, obrigada a lidar com o medo da violência, que não deixava os filhos brincarem na rua. A primeira saída do Bloco Afro Ilê Aiyê foi planejada para tocar nas dores do povo negro e evidenciar a vontade de mudar a história, o que revolucionou a política e a estética e até incomodou a imprensa.

O Ilê foi acusado de ser um bloco racista quando anunciou que apenas negros ocupariam aquele espaço.  O discurso de ordem na época do regime militar impôs o silenciamento da questão racial. O tema era tratado como crime de subversão no Brasil. Tanto que até o quesito cor, saiu dos itens de registro do censo brasileiro e só foi retomado com as pressões do Movimento Negro Unificado (MNU), na década de 1980. 

Foto Jornal A Tarde 13 de fevereiro de 1975 – Foto: Reprodução

Em uma realidade de opressão pela censura no contexto da ditadura militar, um dos fundadores, Antônio Carlos Vovô, vivia imerso no mundo da cultura negra tradicional baiana, entre os candomblés e os sambas. O Ilê conseguiu promover a expansão da cultura de origem africana no Brasil, que atravessou o país impulsionando a juventude negra.

O Ilê compreende algo que o Carnaval não pode perder. Um conteúdo revelado pelas alas, pelos instrumentos de percussão, pelas letras das músicas, pelos cabelos e pelas ideologias.

Antônio Carlos, o Vovô do Ilê – Foto: Redes Sociais

Contribuição social

A ação social da Iyalorixá Mãe Hilda Jitolú se desenvolve em vários domínios de produção político-cultural. Tem uma contribuição decisiva para a linha filosófica de trabalho do Ilê Aiyê. Em 1988, Mãe Hilda criou uma Escola de Alfabetização, que leva seu nome. As portas do Terreiro foram abertas para que os filhos das filhas de Santo e os da comunidade pudessem estudar.

A instituição oferece os primeiros anos do ensino fundamental, focando na temática da equidade racial e de gênero. Uma escola de percussão foi aberta, em 1992, para formar jovens instrumentistas para a Band’Aiyê. Três anos depois, o Ilê Aiyê iniciou a edição anual dos Cadernos de Educação, com textos sobre a história negra. 

Leia também: “A cor dessa cidade não sou eu”, desabafa Mariene de Castro sobre não cantar no carnaval de Salvador

Em 2003, foi inaugurada a sua sede. Em 2010, o Ilê foi considerado patrimônio cultural da Bahia. Mãe Hilda também incentivou a criação do Memorial Zumbi dos Palmares, em Alagoas.

Programação para o Carnaval 2023

Serviço:
1º Dia – Sábado (18) | Circuito Mãe Hilda: primeiro desfile: Concentração no Curuzu (20h às 21h), seguindo até Plano Inclinado da Liberdade | Segundo desfile: a partir de 2h da madrugada de domingo (19), saindo da Vitória em direção a Piedade.

2º Dia – Segunda (20) | Circuito Osmar: Concentração às 18h na Araújo Pinho (Canela), saída prevista às 19h |

3º Dia – Terça-feira (21) Trio Pipoca, turno da tarde, no Circuito Osmar

TEMA: Agostinho Neto – Kilamba, Manguxi, 100 Anos do Herói Nacional de Angola

Izadora Feitosa

Izadora Feitosa

Jornalista, nordestina de Recife - PE. Pós-graduanda em Assessoria e Gestão da Comunicação, escreve sobre cultura, sociedade, processos de comunicação e TEA

Deixe uma resposta

scroll to top