“Ser uma pedagoga negra é ser referência para crianças pretas”, afirma professora

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Na última quinta-feira (28) foi comemorado o Dia da Educação e, conforme informações do Censo Escolar, alunos negros são a maioria nas escolas públicas do Brasil. Porém, as desigualdades educacionais entre alunos brancos e negros é frequente no ensino de base do país, dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam que no 5º ano do Ensino Fundamental, 41,4% de crianças pretas e 62,5% dos pardos possuíam aprendizagem adequada em língua portuguesa, enquanto brancos nessa condição contabilizavam 70%. Essa diferença também era visível em matemática, em que 29,9% dos pretos e 49,2% dos pardos possuíam aprendizado adequado, contra 59,5% dos alunos brancos.

crianças pretas
Priscila lembra que representatividade importa, inclusive me sala de aula – Foto: Arquivo Pessoal

As desigualdades não param nas oportunidades de ensino, elas estão também na ausência de dados sobre docentes negros no ensino de base. Informações do Censo Escolar, divulgadas em 2020, apontam que mulheres representam 96,4% das docentes do ensino de base no Brasil, porém esta pesquisa não traz o recorte racial, o que torna informações a respeito de docentes negros no ensino de base escasso.

Racismo e Representatividade

A pedagoga Priscila Coelho lembra que a história do Brasil foi marcada pela colonização e o regime escravocrata, que se fez presente por mais de 300 anos e deixou o racismo como herança para a sociedade brasileira. Segundo ela, um levantamento da Ong SOS Racismo indica que atos racistas no ambiente escolar representam 70% do total de casos. “Ser uma pedagoga negra é ser referência para crianças pretas, coisas que não tive durante a minha infância. Porém, seria extremamente importante para eu me sentir bem vinda na sala de aula, já que crianças podem, sim, serem racistas com os colegas, devido a criação, o que faz da escola o ambiente em que crianças vivenciam sua primeira experiência com o racismo”, explica a pedagoga.

Ataques racistas não se restringem apenas a alunos negros, professores também são vítimas. Um estudo realizado pela Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (CONDEPE/FIDEM) indica que 60% dos negros inseridos no mercado de trabalho já sofreram racismo no ambiente de trabalho.

Educação Antirracista

Priscila enfatiza que ser professora vai além dos ensinamentos do currículo escolar. “Nas minhas aulas, sempre busco um gancho para fazer com que alunos negros sintam-se acolhidos e representados, busco ensiná-los com exemplos de vida de pessoas negras, sempre tecendo um mundo lúdico a eles”, afirma.

Ainda de acordo com a pedagoga, o racismo é responsável pela invisibilidade da população negra, é preciso reconhecer que o racismo estrutural existe principalmente no ambiente escolar, “e deve ser combatido, pois reflete no desenvolvimento escolar e na autoestima das crianças negras”, enfatiza.

Legislação

No ano de 2003, foi sancionada a Lei 10.639/03, que inclui o ensino a história da África e da cultura afro-brasileira no currículo escolar.

Priscila lembra que há diversas maneiras de construir um ensino anti racista. “Frequentemente trabalho com meus alunos a verdadeira história do povo negro, é importante que eles conheçam suas origens. Em aula, procuro trabalhar também questões de aceitação com meninos e meninas negras, falo e leio muito sobre cabelos crespos. É importante elevar a auto estima e mostrar para todos os alunos que as características físicas do colega precisam ser respeitadas”, diz a pedagoga.

“Trabalhar questões raciais, é plantar sementes para o futuro. A pedagogia orienta a criança desde a infância, auxilia na formação da sua personalidade. Ser uma criança negra é um desafio no ambiente escolar que muitas vezes é envolto de solidão, então busco ser afetuosa para que não se sintam invisíveis e incansável em ensinamentos raciais, é mais fácil aprender o que é o racismo e suas nuances em aula comigo, do que no mundo”, finaliza Priscila Coelho.

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