“Quando eu era negro minha vida era muito difícil”

Na mesma linha do “somos todos humanos”, falar das questões raciais no Brasil tem sido um transtorno. As redes sociais jogaram foco sobre uma boa quantidade de pessoas que se sentem agredidas com a temática. Você comemora a criação da sapatilha para bailarinos negros ou da caixa de “lápis cor de pele” para a variedade de tons da nossa sociedade, e lá vem sujeito evocar a condição de igualdade de convivência e oportunidades. Ora, em um simples exercício de empatia, seria fácil entender que não houve igualdade de oportunidades para a criança negra que, nos anos de 1980, sequer achava uma família preta nas revistas para recortar e fazer o dever de casa.

No país em que os cidadãos já se autodeclararam com 136 cores diferentes e que convive com uma pigmentocracia, onde quanto mais claro o tom da pele, maiores são as oportunidades, falar de cor é assunto fundamental. No entanto, sempre foi um tabu. No livro “Nem preto, nem branco, muito pelo contrário”, a pesquisadora Lilia Schwarcz conta a história de um dentista bem sucedido, que havia entrado para um conceituado clube local e resumiu a lógica brasileira – ou a falta de lógica – numa frase que beira à insanidade: “quando eu era negro minha vida era muito difícil.”

A crise brasileira é tão grande que, no primeiro Censo da nossa história, começamos com um país preto e, magicamente, fomos embranquecendo nas pesquisas seguintes. Como mostra o professor Marcelo Paixão, “somente em 1872 os pretos & pardos, em condição livre e escravizada, formavam a maioria da população, respondendo por 58,0% do total (38,3% pretos, 19,7% pardos). Já no levantamento de 1890, o primeiro da República, o percentual de pretos e mestiços (denominação dada naquele levantamento aos pardos) foi de 47,0%”.

Uma das explicações para esta “crise de identidade” é a ideia de branqueamento que perseguiu o Brasil durante o século XX”

No Censo de 1991, o movimento negro promovia a campanha “Não deixe sua cor passar em branco”. E na primeira década dos anos 2000, mais precisamente na PNAD de 2008 – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, pretos e pardos atingiriam 50,6% da população brasileira.

Uma das explicações para esta “crise de identidade” é a ideia de branqueamento que perseguiu o Brasil durante o século XX. O antropólogo Roquete Pinto chegou a projetar, em 1929, que “em 2012 teríamos uma população composta de 80% brancos e 20% mestiços. Nenhum negro, nenhum índio.”  Não foi bem assim. Entre 2012 e 2016, o número de brasileiros que se autodeclaram pretos aumentou 14,9% e, junto com pardos – denominação do IBGE – chegaram a 54,9%. Diante deste quadro, qualquer tentativa de não discutir a temática será frustrada. E não me venha com “minha cor é o Brasil”.

Luciana Barreto

Luciana Barreto é uma referência para os jornalistas negros de todo o país. Por 14 anos esteve na TV Brasil, conquistou prêmios e, junto com a TV pública, deu voz e protagonismo aos personagens excluídos do jornalismo tradicional. Antes de ir para a TV Educativa, Luciana trabalhou no Canal Futura, GNT, BandNews, TV Bandeirantes. Embora esteja na grande mídia, Luciana sempre tem um olhar atento ao que chama de pautas negligenciadas.

Um comentário em ““Quando eu era negro minha vida era muito difícil”

  • 14 de fevereiro de 2019 em 15:15
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    Sou Maria Luiza dos Santos Gomes de Oliveira, 69 anos, negra, suburbana, nascida no Irajá, moradora de Thomaz Coelho, Formada em Administração de Empresas, pela SUAM em 1976, Formada em Pedagogia, pela UERJ em 2011, poetisa e hoje atuando como Professora de Educação Infantil na Prefeitura do Município do Rio de Janeiro. Sinto-me vencedora. Sou fã e grande admiradora de Luciana Barreto.

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