O pensamento de Grada Kilomba e a decoração de festas no Brasil Colonial

Por: Angélica Ferrarez de Almeida

Doutora em História Política – Uerj

Pesquisadora do grupo de pesquisa Multi Institucional Áfricas

Quando a intelectual Grada Kilomba veio ao Brasil por ocasião da Bienal de Livro de São Paulo, ficou espantada com as marcas do colonialismo e as heranças da escravidão que vivemos, muitas vezes, de forma naturalizada em nosso cotidiano.

Grada diz: “Há uma história de privilégios, escravatura e colonialismo expressa de maneira muito forte na realidade cotidiana. E é espantoso ver a naturalidade com que os brasileiros conseguem lidar com isso”

Psicóloga, professora e artista multidisciplinar, a intelectual portuguesa criada em São Tomé e Príncipe, viaja o mundo com seu trabalho tanto no campo das performances, vídeo instalações, quanto no universo das escritas com seus conceituados livros “Memórias do Plantation: episódios do racismo cotidiano” de 2008 e “Performing Knowledge” de 2016.

Grada lembra da arquitetura brasileira, diz que nunca viu em nenhum lugar do mundo casas com uma porta na frente e outra nos fundos, na qual estas possuem sujeitos diferentes e diz só ter visto esse tipo de construção no Brasil. Eu complemento, com o elevador de serviço e o elevador social e o tão naturalizado quarto de empregada, presente na maioria dos apartamentos dos meus amigos classe média, que fica dentro da cozinha. Os desconstruídos fazem de escritório ou de quarto de entulhar coisas, mas muitos utilizam este espaço com a função que para ele foi projetada.

Grada Kilomba é escritora, teórica e artista

Se o colonialismo marca a arquitetura, quem dirá as relações sociais e de trabalho. Grada fica espantada com a quantidade de pessoas negras que são prestadores de serviço. Diz ela: “Aqui há um senhor que abre a porta, um senhor que conduz o carro, uma senhora que limpa. Estes são serviços completamente coloniais”. Complemento que temos uma senhora que serve à mesa, que as vezes é diferente de uma outra que limpa a casa, que pode ser diferente da que cuida das roupas, da que cuida das crianças, e por aí vai.

Segundo a autora: “O branco de hoje não é mais o responsável pela escravidão, mas ele tem a responsabilidade de equilibrar a sociedade em que vive”. Por isto, quando a branquitude se levanta, seja no campo político-social, seja nas representações audiovisuais, para dar um exemplo, ou seja, na pseudocriatividade de decoração de festas (vide caso da mulher branca que trabalha na revista cult model bacaninha dos brancos, gozando e produzindo privilégios brancos e que decide fazer uma festa cuja decoração foi inspirada na dor e sofrimento de um povo negro e na herança escravocrata e colonial do Brasil), sabemos que isso não é um fato isolado, mas sim representa muito das relações no Brasil, assim como é sabido que esta mulher não representa uma cor e sim uma definição política carregada de privilégios de um determinado grupo e isto é branquitude.

Quando falamos sobre o que significa ser branco, falamos de política e não de biologia”

Sendo assim, não estamos refletindo fatos isolados e sim fenômenos sociais amplos. Grada diz: “Quando falamos sobre o que significa ser branco, falamos de política e não de biologia”

É fato que trabalhar racismo é um processo psicológico que envolve os dois lados da moeda, porque racismo é estrutural e a desnaturalização de suas raízes não é um processo contínuo, como aponta a própria Grada, mas é como uma ferida que sangra e sempre que sangra é preciso fazer curativos.

E estes curativos têm vindo na forma de narrativas antirracistas, discursos potentes nas redes sociais, vídeos e canais próprios de ativistas e instituições, ou seja, uma série de recursos que se tornaram o termômetro do universo racista, onde, como diz o ditado popular, “racistas não passarão”.

Mas este texto não está sendo feito para dar ibope aos racistas e sim para aproveitar a ferida que a mulher branca festeira abriu e apresentar algo realmente produtivo que é o pensamento de Grada Kilomba e suas impressões do Brasil Colonial versão século XXI, bem como chamar atenção apara a dimensão traumática do racismo cotidiano e a violência diária que reencena a sociedade colonial em seus múltiplos aspectos.

Claro que ter esta mínima consciência na teoria e não partir para a prática cotidiana com pequenos gestos ou grandes, que sejam, não vai nos fazer virar a página três de um livro. Para os que atingiram o estado da consciência, devem avançar para o estado da atitude! Para os que nem consciência têm, é preciso desnaturalizar o olhar e a relação de servidão que carregamos no mundo contemporâneo.

Pois o cenário é de caos e o passado está se atualizando no presente, mas os levantes são irreversíveis e o romantismo dos tempos escravocratas e coloniais muito acionado pela classe média/alta está sendo questionado e mais que isso repudiado, não vai mais passar. Tivemos alguns avanços, mas não me iludo, temos ainda um longo trabalho de descolonização eurocêntrica do pensamento, da arquitetura, da linguagem, das artes e agora também, das festas. E já que a branca festeira termina seu pedido de desculpas se apropriando de um samba, termino este texto, no alto de minha legitimidade, com outro samba, pois: “pra matar preconceito, eu renasci”.

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