Por que a história da doutora Joana D’Arc fere toda a comunidade preta?

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Professora Joana D’Arc Félix

A data era 14 de maio, um dia muito significativo para os pretos no Brasil: o dia da liberdade mas também do início de uma jornada de luta por inclusão e direitos. Neste 14 de maio de 2019, no Congresso Nacional, lideranças de movimentos sociais se confrontavam com parlamentares revisionistas que faziam uma homenagem à princesa Isabel. Entre eles, merece destaque, um deputado preto que discursou na sessão solene. Dizia: “não precisa falar que eu sou negro, MAS sou com muito orgulho sim.” Apesar de contados a dedo, os pouquíssimos políticos negros da casa se confrontavam. Nos corredores, discussões envolviam o tal deputado e lideranças do movimento negro acerca de traição e ancestralidade. A essa altura, já estávamos todos consternados. Então, no fim do dia, uma bomba: a machete do jornal Estadão dizia: “professora que vai virar filme tem diploma falso de Harvard”. A notícia pipocava nos grupos de mensagens e provocava discussões acaloradas. Não entraremos aqui, neste texto, no mérito da culpa da doutora Joana. Vamos nos restringir a uma única pergunta: por que esta notícia abatia tão fortemente os negros?

A resposta está na jornada de 131 anos por inclusão de direitos, fim do racismo e do extermínio. Uma jornada que não foi trilhada individualmente. Estamos aqui porque, ao longo da estrada, evocamos expressões como aquilombamento, sororidade, coletividade e todo tipo de palavra que nos identificasse enquanto grupo, com a solidariedade e generosidade da filosofia Ubuntu. Descendentes de pretos trazidos para as Américas na condição de escravizados constantemente recorrem a esta consciência de grupo. Como em uma linha afrocêntrica, buscam uma unidade, uma proteção dos valores, uma identidade e, especialmente, a superação dos males causados pelo racismo.

Nossas histórias de superação têm ficado menos exemplares e cada vez mais heróicas. E nossas mentes, adoentadas pela opressão racista”

Pretos se veem assim. Mulheres pretas e crespas se cruzam em corredores e trocam, organicamente, olhares de cumplicidade. Nada é dito. Pretos são vistos assim, especialmente por causa do racismo. Como nos ensina a professora Lia Vainer Schucman, o racismo é um traço unificador da identidade racial branca. Também para os brancos, somos “os pretos”. Por isso, uma ativista inconformada, berrava nos corredores ao tal deputado negro-mas-com-muito-orgulho: “eles estão te usando!” Nossa história é complexa. Nosso engenheiro preto André Rebouças, amigo e conselheiro da princesa Isabel, monarquista e abolicionista, não teria entendido nada do que se passava naquela sessão solene.

Esta linha que une os descendentes de escravizados no Brasil é a mesma que nos faz vibrar com histórias de quem derrubou os obstáculos impostos pelo sistema racista. Por isso, morremos um pouco com o escândalo que envolve a doutora Joana D’Arc. Nossas histórias de superação têm ficado menos exemplares e cada vez mais heróicas. E nossas mentes, adoentadas pela opressão racista.

Como jornalista, tenho que parabenizar o trabalho de apuração dos colegas do Estadão. No entanto, se tivesse uma única oportunidade, minha pergunta seria: por que 14 de maio?”

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Luciana Barreto

Luciana Barreto é uma referência para os jornalistas negros de todo o país. Por 14 anos esteve na TV Brasil, conquistou prêmios e, junto com a TV pública, deu voz e protagonismo aos personagens excluídos do jornalismo tradicional. Antes de ir para a TV Educativa, Luciana trabalhou no Canal Futura, GNT, BandNews, TV Bandeirantes. Embora esteja na grande mídia, Luciana sempre tem um olhar atento ao que chama de pautas negligenciadas.

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