Prefeito de Duque de Caxias, no Rio, anuncia que vai construir creche em terreno sagrado para o candomblé

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O prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), anunciou que irá construir em até 60 dias uma creche em um terreno considerado sagrado para o candomblé. No local, funcionava o terreiro de Joãozinho da Gomeia, considerado um dos maiores pais de santo do Brasil nos anos 50 e 60.

O terreno está completamente abandonado, com focos de dengue, lixos e animais. Muitos moradores reclamam do abandono do local, que se tornou perigoso para a região. Apesar de o terreno estar coberto de lama e sujeira, arqueólogos afirmam que, embaixo de 1,5 metro de terra, se esconde um patrimônio histórico e religioso. Por isso, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) iniciou um processo de tombamento do terreno, que ainda está em curso.

Joãozinho da Gomeia (Foto: reprodução/internet)

Durante uma entrevista para o RJTV, o prefeito afirmou que o terreno foi desapropriado e reforçou que a ideia é transformar o local em uma creche. O prefeito informou ainda que está aberto ao diálogo caso MPF ou outro órgão apresente um projeto alternativo.

João Alves Torres Filho nasceu em 1914, no interior da Bahia. e anos depois chegou ao Rio de Janeiro, mais precisamente em Duque de Caxias Caxias, na Baixada Fluminense, se tornando um dos pioneiros do candomblé na região. Recebia em seu terreiro, instalado na Rua da Goméia, embaixadores, políticos e artistas – sendo chamado pela imprensa “Rei Negro” e até “Papa do Candomblé”.

Neste ano, Joãozinho da Gomeia foi homenageado pela escola de samba Grande Rio, que levou para Sapucaí sua história e debates sobre intolerância religiosa. Joãozinho morreu em 1971, aos 56 anos, vítima de um tumor no cérebro e por problemas cardíacos.

De acordo com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSDH), são cerca de 200 templos religiosos que correm risco de ataques na Baixada Fluminense. Apenas em 2019 foram 132 violações a templos no Rio de Janeiro. Construir algo sem respeitar o passado de Joãozinho da Gomeia é apagar uma história tão importante para o candomblé e reforçar a intolerância religiosa vivida por praticantes da religião.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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