Um estudo conduzido por pesquisadoras brasileiras identificou que bebês expostos à pobreza apresentam desempenho inferior no desenvolvimento motor ainda nos primeiros meses de vida. A pesquisa mostra que, aos seis meses de idade, crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica tiveram escores significativamente menores em variação de movimentos, fluência e no escore total do Perfil Motor Infantil (IMP), instrumento utilizado para avaliar o desenvolvimento neuromotor.
O estudo foi liderado pela pesquisadora Carolina Fioroni Ribeiro da Silva, da Universidade Heinrich Heine em Düsseldorf, na Alemanha, e por Eloisa Tudella, da Universidade Federal de São Carlos. A pesquisa foi publicada na revista científica Acta Psychologica e acompanhou 88 bebês brasileiros entre três e oito meses de idade.
Segundo as autoras, os resultados indicam que a pobreza pode interferir precocemente nas trajetórias de desenvolvimento motor. Aos seis meses, bebês que viviam em contextos de pobreza apresentaram diferenças significativas em relação a crianças que não estavam expostas a essas condições. Aos sete meses, as diferenças permaneceram principalmente no domínio de fluência dos movimentos.

“Seis meses podem representar um período sensível para o desenvolvimento motor em bebês expostos à pobreza”, apontam os autores do estudo. A pesquisa também destaca que o acesso a brinquedos de motricidade fina e a presença de cuidadores coabitantes podem funcionar como fatores protetivos para o desenvolvimento infantil.
O desenvolvimento neuromotor nos primeiros anos de vida é considerado fundamental para habilidades futuras, incluindo aprendizagem, interação social e desempenho escolar. Estudos científicos indicam que ambientes com menor estímulo, estresse crônico e acesso limitado a recursos podem influenciar estruturas e funções do sistema nervoso central desde o início da vida.
De acordo com dados do governo federal, cerca de 7,4 milhões de brasileiros vivem atualmente em extrema pobreza, o equivalente a aproximadamente 3,5% da população. A linha de extrema pobreza no país corresponde a uma renda mensal de até R$ 218 por pessoa, conforme parâmetros adotados com base nas diretrizes do Banco Mundial.
Entre os grupos mais afetados estão crianças pequenas. Segundo dados oficiais e análises do UNICEF Brasil, cerca de 3,3 milhões de crianças de até seis anos vivem em situação de extrema pobreza no país. Especialistas alertam que, nessa fase da vida, fatores como nutrição, estímulo cognitivo, acesso a brinquedos e condições adequadas de moradia podem influenciar diretamente o desenvolvimento infantil.
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Os dados também mostram que a pobreza no Brasil tem forte recorte racial. Informações do Cadastro Único e de levantamentos governamentais indicam que cerca de 75% a 76% das pessoas que vivem em extrema pobreza se identificam como pretas ou pardas. Entre as mulheres pretas ou pardas, a taxa de extrema pobreza chega a 4,5%, o dobro da registrada entre homens brancos, que é de 2,2%.
Para os pesquisadores, compreender os impactos da pobreza no desenvolvimento neuromotor pode ajudar na formulação de políticas públicas voltadas à primeira infância. A identificação de fatores de risco e de proteção no ambiente familiar e comunitário também pode orientar intervenções precoces para reduzir desigualdades no desenvolvimento infantil.









