“O Casarão foi construído pelas minhas ancestrais e hoje estou ali”, celebra a designer de interiores Juliana Bonifácio

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Juliana Bonifácio tem 28 anos, é designer de interiores e mãe do Heitor, de 9 anos. Ela conta que, durante muito tempo, não teve uma casa saudável e, por isso, valoriza cada dia a casa que tem e os trabalhos que realiza, como o casarão de Santa Teresa, que ela está restaurando. 

Juliana Bonifácio no Ateliê Bonifácio, no Rio de Janeiro – Foto: Arquivo Pessoal

Um dos bairros mais antigos da Região Central do Rio de Janeiro, Santa Teresa, é um daqueles lugares que, por natureza, possui muitos imóveis antigos. Um deles, com quase 200 anos de construção, é o novo projeto, ou nem tão novo assim, de Juliana. Desde dezembro de 2021 que ela e sua equipe de quase 40 pessoas estão trabalhando na reforma do espaço. “Eu ‘tô’ fazendo uma casa de 500 M², de uma youtuber francesa, e essa casa foi a virada de chave. É a obra mais significativa que eu ‘tô’ ainda fazendo. Estou trabalhando lá, intensamente, com minha equipe”, comemora. 

Ela celebra o trabalho que vem realizando, principalmente pela história que o casarão carrega. Juliana detalha os espaços do local. “Uma casa de 200 anos, o pé direito de 5 metros, três pavimentos, vou fazer área de piscina, tô fazendo um telhado. Enfim, essa casa foi muito significativa porque ela foi construída pelas minhas ancestrais e hoje eu tô ali, dando uma nova narrativa para aquele ambiente. Toda estrutura dela diz que é uma tecnologia nossa, as pedras que construíram essa casa é uma tecnologia nossa, que veio do Egito, conta.

Juliana comemora a oportunidade de poder reformar um local histórico no Rio de Janeiro, uma das cidades mais turísticas do mundo. “É muito incrível eu estar fazendo essa casa, por conta de toda a memória que ela traz na sua construção. Mas, para além disso, por ser uma casa europeia também, né? Então, vem eu, uma menina preta comandar uma obra dentro de uma casa dessa, tem vários significados, de várias maneiras”, celebra.

Além de toda história que o casarão carrega, Juliana lembra que o trabalho das mulheres sempre foi importante e valorizou a todo momento. “É uma casa que trata de sororidade, que traz o sagrado feminino, eu trago isso com muita potência, muitas mulheres trabalhando comigo nessa reforma para poder deixar ali essa energia, sabe? Essa obra movimentou 40 pessoas diretamente, durante esses oito meses, então, foi muito dinheiro apostado e foi uma oportunidade para muitas pessoas que estavam paradas na pandemia”

A valorização dos profissionais que trabalham com ela é um dos tópicos da conversa com a designer de interiores. Ela conta que a remuneração de quem trabalha com ela é justa. “É um projeto lindo, liderado por mim, idealizado por mim e minha equipe é muito atenta, sabe? Sou muito feliz por estar trabalhando lá, poder pagar bem as pessoas que trabalham para mim não tem preço, não tem preço garantir o sonho dos meus, sabe? Meus parceiros que sempre caminharam comigo”, anima.

Juliana leva ancestralidade ao ambiente, uma das suas marcas – Foto: Arquivo Pessoal

Pretos na arquitetura

Por falar em profissionais de arquitetura e design de interiores, um levantamento, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) mostra que apenas 4,33% dos arquitetos e urbanistas se autodeclaram negros, enquanto 78,14%, são brancos. Esses são os primeiros dados que apresentam um recorte racial junto à categoria. O levantamento do CAU/BR aponta também que 27% dos arquitetos e urbanistas desempregados são mulheres negras, assim como as arquitetas negras sofrem 16 vezes mais assédio sexual no ambiente de trabalho e seu rendimento médio salarial é de R$ 3.436, quase a metade do que um homem branco ganha. 

“É muito difícil conseguir achar pessoas pretas que trabalham com design, com arquitetura, com engenharia. Todos os lugares que eu fui, em todos os eventos que eu fui de design, de construção, nunca vi um design, uma arquiteta preta assinando algum projeto. Hoje em dia a gente tem dois arquitetos incríveis que a Stephanie Ribeiro, que trabalha no GNT, e tem a Ori, que faz um trabalho maravilhoso, mas é muito difícil de ver profissionais trabalhando nessas áreas”, lamenta. 

Ela conta ainda que as referências da arquitetura e do design são todas europeias e tem tentado levar ideias ancestrais para os novos trabalhos que vem realizando. “O que venho construindo, na verdade, é uma nova narrativa, trazendo a nossa ancestralidade para dentro dessa construção, sabe? Tanta coisa incrível que a gente sempre fez e que a gente deixou de fazer por conta do sistema capitalista e por conta mesmo do reinado de quem se apropriou de tudo que era nosso”, completa. 

Por outro lado, Juliana enfatiza que fica feliz quando é contratada por pessoas negras, uma vez que a população preta ainda está distante da “casa saudável”. “A gente tá muito longe ainda de alcançar esse lugar de ter essa casa saudável, esse território nosso. Ainda tem muito caminho pela frente e a gente ainda precisa se apropriar de muita coisa para entender que, sim, a gente pode ter nossos castelos, tá na hora da gente retomá-los”, afirma. 

Sustentabilidade e empreendedorismo

Segundo informações da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon) 98% dos materiais de reforma residencial é reciclável, mas apenas 20% do entulho gerado nessas obras é reaproveitado. A sustentabilidade para mim é a base de tudo. Eu comecei a trabalhar a partir dessa visão da sustentabilidade quando comecei com o design de interiores. Eu trabalhava com os palets, com tecido na parede, sempre trabalhei ressignificando o mobiliário”, comenta. 

“Hoje sou especialista no boho chic e ressignificar o mobiliário que retrata uma memória afetiva, que tem muito tempo na casa da pessoa, é muito importante para mim. Então, antes de descartar qualquer material das minhas obras, a primeira coisa que eu faço é ressignificá-los”, analisa a designer.

O pé direito do casarão possui 5 metros de altura – Fotos: Arquivo Pessoal

Outro ponto que Juliana toca é das trocas de móveis anuais. Ela lembra que não há necessidade de realizar essa mudança se os móveis ainda estão em perfeito estado de conservação ou se podem ser reaproveitados. “Eu acho que a gente tem muito ao longo da vida, mas muitas pessoas não se atentam a isso e todos os anos querem trocar algum objeto da casa”, afirma. 

Além disso, revela também que está produzindo uma plataforma para que as pessoas façam essas trocas entre si. “Estou criando uma nova uma plataforma que se chama Troque. A plataforma fala disso, eu vou pegar todos os materiais das obras que eu faço e colocar nesse site, e as pessoas vão poder trocar e acessar isso com uma tranquilidade na hora que precisar decorar a casa e todas as peças vão ser exploradas. Você comprou, como foi isso? Para a gente entender qual foi essa energia que foi gerada de cima dessa compra”, revela. 

Espaço Árabe, criado para trazer as memórias afetivas da cliente – Foto: Arquivo Pessoal

Uma das características da casa, segundo Juliana, é a memória afetiva que ela carrega. A dona do imóvel é uma mulher francesa, mas com origem árabe. Então, a designer fez questão de acomodar a anfitriã de forma que ela lembrasse sua ascendência. 

“Eu trouxe todos os detalhes das memórias dela, tudo que ela conversa comigo, vou colocando de algum modo na casa dela. Criei um espaço árabe para que ela consiga se refugiar. E escrevi ‘Espaço Árabe’ no telhado, que é um chalé, para ela olhar as estrelas e admirar a vista do bairro de Santa Teresa”, entusiasma.  “Tem muita coisa linda, quero muito que vocês venham conhecer a casa, porque é linda demais”, convida.

“Todas as minhas moradias eram com enchente, sem telhado. Em algum momento da minha vida, eu e minha família moramos na rua. Então, casa, pra mim, sempre foi algo sagrado”, finaliza. 

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor do Notícia Preta.

9 Comments

  • Andréa Stutz Soares De Angelis

    (17/07/2022 - 18:17)

    Pessoal, muito legal a matéria, mas “design” é a área de conhecimento, o bjeto de estudo e produto final da profissão. O nome da profissão é “designer”.

    • Bom dia, Andreia. Muito obrigado pela sinalização. Usei o termo dessa forma por ter sido como recebemos. De todo modo, vamos alterar no texto. Abraços!

  • Mesmo assim ainda e uma brancs francesa e rica que vai morar ai.

  • […] Leia também: “O Casarão foi construído pelas minhas ancestrais e hoje estou ali”, celebra a design de inter… […]

  • maria ivone pereira de sá

    (19/07/2022 - 19:07)

    Que energia boa dessa moça!
    Sucesso

  • Eliana Sampaio Romão

    (19/07/2022 - 22:42)

    Eu quero esse sofá rosa. Lindo . Como faço?

  • Ah coitada

  • maria do carmo oliveira

    (20/07/2022 - 16:23)

    Orgulho demais de você e da nossa Ancestralidade preta!

  • Desmistificandofalacias

    (23/07/2022 - 19:28)

    Site racista, o brasileiro também é descendente de europeus, asiáticos e indígenas. O Site faz distinção de raças, discrimina os demais brasileiros que não são descendentes de africanos. Se não fosse a arquitetura greco-romana, renascentista, vitoriana, contemporânea, árabe e dos demais países asiáticos esse site não existiria para comentar arquitetura.

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