“Não se passa pela transição capilar sem uma grande transição subjetiva”, diz psicóloga

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Entrevista com Ivani Oliveira: a transição capilar para as mulheres negras sob a ótica da psicologia

Por: Victoria Henrique

Ivani de Oliveira é mestra em Psicologia Social pela PUC-SP e autora da dissertação “Versão das mulheres negras sobre transição capilar: um estudo sobre processos de descolonização estética e subjetiva”, que foi pensada e escrita a partir da sua atuação como psicóloga clínica.

Ao atender mulheres negras que iniciavam esse processo com muito sofrimento psíquico, percebeu a importância de dar relevância ao processo psicológico que está implicado na transição capilar. A vontade de construir um debate sobre o tema na Psicologia estava relacionada à necessidade de uma escuta mais qualificada dos profissionais da área às pessoas que decidiam iniciar o procedimento. “Não é uma mera adesão à moda ou uma escolha superficial relacionada aos aspectos de beleza das mulheres”, comentou.

Uma dessas mulheres negras que acompanhou nas sessões clínicas influenciou diretamente na escolha do seu objeto de pesquisa do mestrado. A jovem, que tinha um cabelo liso “muito admirado”, decidiu transicionar – iniciar o processo de transição capilar – logo depois de ter tido contato com a discussão política racial. Após ter cortado o cabelo através do big shop, o grande corte, afirmou que cada centímetro de cabelo que crescia, era um centímetro a mais de consciência que tinha. Foi a partir desse acontecimento que Ivani iniciou os seus estudos sobre a temática, ao perceber os impactos na subjetividade humana causada pela transição capilar.

Em uma conversa com o Notícia Preta, a psicóloga compartilhou aspectos da sua pesquisa e explicou sobre os impactos causados pela transição capilar nas mulheres negras.

Notícia Preta: Quais são os principais motivos para uma mulher negra decidir passar pela transição capilar?

Ivani Oliveira: Essa pergunta é muito interessante porque mostra a nossa bolha de pertencimento. Antes da pesquisa, eu entendia que as mulheres negras só faziam a transição capilar por posicionamento político. Entretanto, quando eu inicio os estudos, eu me deparo com mulheres negras que decidiram transicionar porque tinham muitos prejuízos sociais, como efeitos danosos nas convivências de afeto, na saúde e nas interações nos ambientes por causa do alisamento. A decisão de parar de alisar o cabelo muitas vezes estava na necessidade de manter a saúde e não necessariamente por um discurso político. Por exemplo: eu tive acesso a notícias de mulheres negras que morreram após o procedimento de alisamento e/ou tiveram reações alérgicas com a queima do couro cabeludo.

Esses dados me assustaram, mas não fiquei surpresa. O racismo cotidiano é muito violento e escancara essa violência quando a gente percebe que as mulheres negras são submetidas a produtos tóxicos para modificar a textura dos seus cabelos e elas sustentam isso por anos.

Notícia Preta: Você afirma na sua pesquisa que o cabelo crespo precisa ser entendido para além da questão biológica e/ou fenotípica. O que isso significa exatamente?

Ivani Olveira: Nesse momento da dissertação, eu digo que não é só uma questão de ser feliz com o cabelo que você nasceu. No cabelo crespo está ancorada uma violência histórica. Até hoje ele é entendido como algo indisciplinado, selvagem. O desejo de controlar os nossos corpos é manifestado como uma preocupação com a nossa higiene (Ah, como você lava o seu cabelo?). Esses corpos não estão direcionados ao mundo a partir dos seus próprios desejos. Eles estão submetidos sempre a uma lógica dominante.

Notícia Preta: A transição capilar pode ser um meio de resgate da identidade como mulher negra?

Ivani Oliveira: Eu entendo que pode ser um meio consciente e às vezes não consciente. É importante evidenciar que nós, mulheres negras, somos muito distintas. Temos diferentes religiões, pertencimentos e classes sociais. Então, nós temos concepções de mundo diferentes. No entanto, o que eu percebia é que a mulher que inicia a transição capilar por uma reafirmação da sua negritude e aquela que não o faz por tal motivo, se encontram no mesmo lugar. Explico o porquê. Quando essa mulher que não transicionou pela reafirmação pesquisa sobre como cuidar dos seus cabelos crespos, ela tem acesso a um universo de conhecimento sobre o tema. O posicionamento político racial e a consciência racial acabam sendo inevitáveis nesse processo.

Notícia Preta: Qual o recorte da sua pesquisa? Você se refere somente a cabelos crespos ou também a cabelos cacheados? Já que as opressões aumentam dependendo da textura do cabelo da mulher negra.

Ivani Oliveira: Eu falo de todos os cabelos que não têm a curvatura do liso. Aproveitando a pergunta, gostaria de trazer uma questão. É muito importante compreender que apesar de termos um grande esforço para colocar em desuso as nomenclaturas dos nossos cabelos, como duro e pixaim, na tabela de classificação há uma hierarquia. O cabelo crespo/crespíssimo é o último da tabela numérica e alfabética, o chamado 4c. Esse movimento é muito interessante porque parece que vamos a um lugar novo, mas ainda está implícita uma mesma lógica de hierarquia. Por que o 1a é considerado o cabelo liso?

Notícia Preta: Para a realização da sua pesquisa, você colheu depoimentos de diversas mulheres negras. Eles são muito distintos ou podemos falar em um ponto em comum?

Ivani Oliveira: Nós podemos falar em muitos pontos em comum e um deles é que não se passa pela transição capilar sem uma grande transição subjetiva. Existe uma mudança nos aspectos emocionais dessas mulheres depois que elas passam pela transição capilar. Mulheres que eram intimidadas no espaço de trabalho e nas suas relações de interação vão para esses lugares com maior espontaneidade e mais autênticas. Eu nomeio esse processo da transição como uma possibilidade de descolonização subjetiva, que é retirarmos de nós a imposição dos nossos corpos feita na colonização. Uma das coisas que mais gosto de observar é que quando uma mulher transiciona esse efeito vai para trás e para frente. A mãe dessa mulher às vezes olha para ela e diz – Nossa! Como a minha filha ficou bonita -, porque essa mãe educou a sua filha para ter o cabelo alisado como uma possibilidade de se inserir nessa sociedade racista. Além disso, essa mulher que passou pelo processo não vai submeter os seus filhos e filhas a mesma lógica que foi submetida. Ou seja, nós temos uma ruptura desse processo que impõe o alisamento dos nossos cabelos de forma geracional.

Notícia Preta: Como você acha que a internet influenciou para que mulheres negras decidissem passar pela transição capilar, considerando que ela ainda reflete grande parte da comunicação que é colonializada?

Ivani Oliveira: Eu enxergo que a internet cumpre a função de apoio a essas mulheres para que a transição capilar aconteça. Às vezes a mulher negra está inserida geograficamente em um local onde ela não tem esse apoio. E na internet ela descobre outras mulheres que a incentivam. Vou dar um exemplo. Eu fui aprender a pentear o meu cabelo com 30 anos, porque foi quando eu acessei os processos de cuidados com os cabelos. Um pente convencional é um objeto de tortura para nós. Então, eu acho que a internet com todas as contradições, com todas as críticas que possam ser feitas, ela serve como espaço de encontro, apoio e incentivo.

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Victória Henrique

Victória Henrique é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante um ano foi apresentadora de um programa sobre educação no YouTube da Mídia NINJA e hoje é colaboradora do Notícia Preta e colunista da Mídia NINJA. Pela UFF, pesquisa experiências em rede, com foco na atuação de mídias independentes no Brasil.

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