Mulheres da favela e o Coronavírus

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Gizele Martins é militante e jornalista no complexo de favelas da Maré – Foto: Arquivo Pessoal

Por Mariana dos Reis

Ausência de saneamento básico, falta dágua, trabalho informal, nenhuma garantia de direito social, inexistência de materiais de higienização, habitação com apenas um cômodo. Esta é a  perversa realidade de grande parte de mulheres moradoras de favela no Rio de Janeiro e no Brasil. Em tempos de pandemia e possível proliferação do vírus COVID 19 (Coronavírus) nas próximas semanas, acompanhamos notícias de incertezas e angústias dos moradores de favelas com relação ao período de quarentena em que se recomenda o completo isolamento. Muitos ativistas favelados têm problematizado a romantização que certos grupos sociais têm promovido  neste período, atribuindo a ideia do confinamento como tempo de reflexão individual, auto conhecimento e afeto entre as pessoas da família. 

No entanto, há elementos sociais que desconstroem essa visão do confinamento enquanto direito para todos, se considerarmos a perspectiva de classe. Há famílias concentradas nas classes A, B e C que possuem um conforto considerável no seu lar com a geladeira e despensa abastecida de alimentos, possibilitando a otimização do trabalho home office e o convívio social equilibrado. Porém, no Brasil, grande parte das famílias brasileiras, pertencentes às classes D e E, possuem condições de vida indignas, sobrevivendo da informalidade ou trabalhos autônomos e, muitas vezes, não garantindo o sustento necessário. Em meio a estas dificuldades financeiras, somam-se as dúvidas atuais, neste momento, a população concentrada nas favelas: como isolar um parente suspeito de COVID 19 quando se divide somente um cômodo com várias pessoas na casa? Como ter hábitos periódicos de higiene se em muitas residências não há sequer água potável para os moradores? Como manter muitas crianças confinadas num espaço apertado que não lhes possibilita momentos recreativos.

Mas, sem dúvida alguma, o maior  questionamento dos moradores de favelas se concentra na instabilidade trabalhista e processo de possível pauperização das suas condições de vida neste período de isolamento. Segundo pesquisa da Central Única de Favelas (CUFA), das 77 milhões de pessoas que constam no cadastro único (instrumento que identifica as famílias de baixa renda), 66 milhões vivem com menos de 1 salário mínimo renda per capita, 41 milhões possuem bolsa família e 11 milhões com renda não muito superior a meio salário mínimo. Numa outra pesquisa recente, o site G1 entrevistou 1142 moradores de 262 favelas de todos os estados do Brasil, 72% disseram não ter renda alguma caso percam sua fonte de sustento. Contudo, mesmo com tantas incertezas, 97% dos moradores disseram ter mudado sua rotina com as medidas de isolamento, 86% afirmam que os filhos deixaram de ir para a escola e 75% disseram ter dificuldade de obter renda com filhos em casa. Quando à situação trabalhista é indagada na pesquisa, 47% se declararam autônomos, 19% possuem carteira assinada, 86% sentiram impacto no trabalho por conta do Coronavírus e 75% se dizem muito preocupadas com a situação da renda por conta do Coronavírus. Já 84% possuem a certeza de que sua renda irá diminuir neste período. Prevendo um quadro de declínio social, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, analisa suspender por 60 dias a cobrança de água, luz, gás e telefonia . No entanto, suas posturas políticas de enfrentamento à pandemia tem sido criticada pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O então presidente, num ato irresponsável e descompromissado com a saúde de sua população, declarou, em último pronunciamento (24 de março), que o isolamento social neste momento “se trata de uma histeria dos meios de comunicação”, incentivando a população a voltar às suas atividades regulares.

Segundo o site da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, foram registrados, até agora, 3 casos de Coronavírus nas favelas da cidade do Rio de Janeiro (um caso em Manguinhos, um no Muquiço e outro na Cidade de Deus). Quando refletimos sobre este momento de pandemia, no caso específico da condição da mulher periférica do século XXI, percebemos alguns fatores na formação das famílias brasileiras: o incremento do número de chefias de domicílios e o percentual de aumento da presença da mulher no mercado de trabalho. Este movimento não se concentra especificamente em determinada região brasileira, vinculando-se a uma dinâmica das áreas urbanas. Dentre causalidades que explicam esse fenômeno, pode se presumir que decorrem a partir de alguns fatores como as desagregações familiares, o aumento de setores de serviços que absorvem a mão de obra feminina e a própria emancipação da mulher em contexto de urbanização. Porém, devido a estrutura sexista e desigual do mundo do trabalho, observamos que os domicílios com chefia feminina apresentam constantemente renda inferior àqueles chefiados por homens.

Um debate que tem sido desvirtuado pelas classes A, B e C no período de quarentena é o dito “privilégio” das mulheres que são mães estarem mais próximas a seus filhos ou até realizando suas tarefas home office de maneira mais “harmoniosa”. Pessoas brancas, pertencentes à classe média, e figuras públicas globais têm sugerido atividades pedagógicas em suas redes sociais a outras mães, por postagens ou envio de links com dicas de como manter as crianças entretidas em suas casas. Além desta atitude corroborar com um pensamento machista, atribuindo-se a responsabilização dos cuidados da infância a figura feminina, constrói-se a lógica de modelo social perfeito da família. Em tempos de confinamento, muitas das famílias faveladas buscam apenas a sanidade mental nas suas habitações. Outro dado agravante com relação à condição feminina neste período de confinamento é o aumento de número de casos de violência à mulher. Segundo reportagem reportagem do G1, do dia 23 de março de 2020, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro registrou um aumento de 50% do número de violência doméstica no período de confinamento.

Em meio a um quadro de incertezas e inoperância do Poder Público no atendimento, muitos coletivos de militantes favelados vem se organizado através de ações emergenciais, coletando doações para a compra de material de higiene e limpeza e alimentos. A primeira prioridade neste gotejamento financeiro através das “vakinhas” on line ou contas bancárias disponibilizadas, foi a compra de águas (potável e mineral) e distribuição entre os moradores mais afetados com essa escassez. Há também doações de água ou materiais de higiene sendo realizadas de forma voluntária por pessoas, organizações ou entidades políticas. Outro movimento realizado por estes coletivos tem sido a tentativa destes coletivos de favelas de se propagar a comunicação comunitária, informando os moradores sobre os riscos de contágio e desmentindo as “fake news” propagadas nos grupos whatsapp, que minimizam os riscos da propagação do Coronavírus.

Entrevistei a militante favelada e jornalista, Gizele Martins, que vem se destacando nesta questão da mobilização na favela da Maré. A também comunicadora popular deste território respondeu às perguntas sobre as ações militantes nas favelas e a condição da mulher favelada em tempos de pandemia.

Notícia Preta: Como tem sido a mobilização coletiva na favela neste momento de quarentena?

Gizele Martins: Desde que começou a quarentena, nós comunicadores comunitários começamos a nos organizar na Maré para saber como se comunicar com a favela sobre os cuidados, os sintomas, os hospitais de referência, a questão da água. Então a gente se reuniu e começamos a pensar nesta comunicação de forma mais objetiva, numa linguagem que atingisse a população(…). Lembrando que a Maré abrange 16 favelas com 140 mil moradores. As ferramentas que estamos utilizando é o carro de som com áudio, transmitindo a informação que não é possível estar em lugares aglomerados, falando dos sintomas dos grupos de risco e dos principais alertas para as pessoas ficarem em casa. Estamos colocando cartazes com informações em supermercados, igrejas, comércios, bares e locais  de grande circulação para se multiplicar a comunicação. Também temos produzido faixas e colocando-as nas ruas e favelas de todo complexo da Maré. Nessas faixas, há mensagens sugerindo que as pessoas sejam solidárias com a vizinhança neste momento com a questão da água, além de orientações do momento de se procurar hospital. Estamos produzindo vídeos com profissionais de saúde e publicando nas páginas da internet e grupos de Whatsapp da Maré. Estamos trazendo a “contra informação” combatendo também as fake news  da internet. Não estamos fazendo panfletagem porque pode aumentar o risco de contaminação.

NP: Como você observa a condição desta mulher favelada durante o período de isolamento?

GM: A mulher da favela é sempre responsável por inúmeras tarefas. E essa mulher que vai no mercado cuidando das crianças, vai estar se movimentando nesta favela então tem um grau de risco que precisamos tomar cuidado. Então também há vulnerabilidade financeira dessa mulher favelada. Ela empregada, faxineira, trabalhadora informal, como o governo garante a quarentena desta mulher favelada, periférica e nordestina da periferia? Como o governo garante o direito à renda básica, alimentação, água, internet e internet? Direito à saúde, à vida! O governo precisa garantir a renda desta mulher, isso é emergencial.

NP: Quais as ações governamentais que poderiam ser realizadas para ajudar as mães periféricas que se encontram sem sustento durante este período?

GM: Para as mães, é exatamente isso! Garantir renda básica, energia, alimentação. Que as crianças tenham acesso a programas educativos, que as crianças convivam mulher neste tempo de quarentena. O governo precisa garantir água para esta trabalhadora que é informal. Esta trabalhadora tem que ser olhada de forma emergencial. É urgente olhar para a mulher favelada hoje nos tempos de Coronavírus. A gente quer a favela viva!

Por fim, retomando a síntese de Gizele Martins, garantir a favela viva é garantir é a condição digna dessas mulheres faveladas que alicerçam tantas outras vidas como troncos de baobá. Carolina Maria de Jesus, escritora negra e favelada que denunciava em muitos dos seus poemas a fome e as desigualdades sociais ressalta: “Antigamente, o que oprimia o homem era a palavra calvário, hoje o salário”.


Mariana dos Reis é doutoranda em educação, professora do Instituto Benjamin Constant, feminista negra e socialista.

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