Campanha do CFM pela Revalida usa mulher negra como médica desabilitada

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“Você confiaria a vida da sua mãe a um médico não habilitado?”: esse é o mote da campanha do Conselho Federal de Medicina (CFM), que utiliza a imagem de uma mulher negra ao lado, para que a revalidação do diploma de médicos estrangeiros seja obrigatória para o exercício da profissão no Brasil.

A campanha é uma reação à discussão da Medida Provisória (MP) 1165/23, em pauta no Congresso Nacional, que trata da reformulação do programa Mais Médicos. Segundo o Conselho, a proposta elaborada pelo Governo Federal permite que formados em medicina no exterior que desejarem atuar no programa não precisem passar antes pela revalidação do diploma.

Porém, no site do Ministério da Saúde, é informado que “a seleção dos candidatos, conforme estipulado no edital do 28º Ciclo, será feita com base na pontuação dos profissionais brasileiros formados no país ou com diploma revalidado (CRM) em titulação, formação e experiência prévia no programa“.

Para a jornalista e especialista em semiótica antirracista, Bruna Rocha, a campanha em si traz uma ligação de uma mulher negra como a “mãe”, usuária dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) e público beneficiário da política pública que é o Mais Médicos, segundo ela, já traz uma problemática.

“Essa problemática é a demarcação do SUS como um espaço para pessoas negras, uma vez que o SUS deveria ser um lugar universal, para todos. Segundo, tem uma outra operação problemática por ser uma campanha de dificultar a vinda de médicos cubanos para o Brasil, propondo essa revalidação”, analisa.

Ela lembra ainda que a maioria dos médicos cubanos que poderiam vir para o Brasil são negros, sabendo que cuba é um país caribenho e com sua população marcada racial e majoritariamente por pessoas negras.

“Essa suposição que essa revalidação brasileira é mais confiável. Esses médicos são diplomados em Cuba, por que teria que revalidar no Brasil? Seria quase uma incorporação de uma lógica bem europeia que quando chegamos na Europa, nosso diploma não serve para nada”, observa.

“Como que em uma relação diplomática com Cuba, o Conselho desconfie da capacidade do Estado cubano de validar esses diplomas?”, questiona.

A especialista ressalta também que a revalidação ou o diploma de profissionais brasileiros não garante segurança para os pacientes. “Existem muitas fraudes, inclusive de pessoas brancas, e que a gente vê, diariamente, violações dos direitos humanos dos pacientes, inclusive entre médicos diplomados. Então, essa proposta é uma lógica completamente racista e equivocada, ainda mais que se dirige à população negra, utilizando a imagem de uma mulher negra para tentar dialogar com essa população negra”, afirma.

“Tentam fazer a população negra desconfiar da qualidade dos médicos cubanos e da capacidade de Cuba de validar o diploma dos seus profissionais”, finaliza.

Reações

Na publicação do CFM no Instagram várias pessoas questionaram a campanha e citaram, inclusive, uma falsa médica que foi presa na última semana, tentando se passar por outra profissional. O ator Thiago Thomé foi um dos que comentaram a respeito do caso.

“Quantos não médicos, impostoras brancos, vemos por aí, atendendo e recebendo por isso, com a passabilidade de quem não é desacreditado? Se atentem a isso, antes de qualquer outra coisa!”, escreveu o ator.

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Um outro seguidor afirma que o Conselho Federal de Medicina apoiava o uso da cloroquina como tratamento da Covid-19, mas foi, cientificamente comprovado que não fazia efeito contra a doença. “A entidade que defendia o uso de cloroquina e ivermectina contra Covid vai dar lição sobre conhecimento de medicina?”, questiona.

Em nota enviada à reportagem do Notícia Preta, o Conselho Federal de Enfermagem disse que as imagens utilizadas na campanha em curso, a qual a pergunta se refere, representam pacientes brasileiros e não médicos ou profissionais da saúde.

A Entidade também disse que “em suas ações publicitárias, o CFM tem buscado inserir imagens que representem a diversidade da população e dos médicos brasileiros, utilizando modelos com diferentes perfis de idade, etnia, sexo, etc.”.

Igor Rocha

Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação, produtor de conteúdo e social media.

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