Jornal carioca utiliza de maneira racista verbo ‘procriar’ para se referir a uma mulher negra com 38 filhos

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O jornal Extra, do grupo Globo, publicou nesta quarta-feira (16) uma matéria com o título racista “Mulher com 38 filhos aos 40 anos finalmente passa por cirurgia para deixar de procriar”. A utilização de maneira pejorativa do termo, ao se referir a uma mulher negra, causou revolta nas redes sociais.

A reportagem do jornalista Fernando Moreira conta a história de Mariam Nabatanzi, que aos 36 anos, já tinha dado à luz 44 vezes. A moradora de um vilarejo pobre de Uganda perdeu seis de seus filhos. Miriam conseguiu finalmente realizar um sonho antigo, realizar uma cirurgia para não mais engravidar.

Menos de 24 horas após a publicação racista o jornal mudou a manchete para “Mulher com 38 filhos aos 40 anos finalmente passa por cirurgia para deixar de engravidar”. Mas não alterou trechos racistas como, por exemplo, quando o jornalista Fernando Moreira faz novamente uma citação racista ao dizer que Nabatanzi foi “esterilizada” .

Após mudar o título o jornalista tentou se explicar, mas só piorou a situação ao dizer: “O verbo anteriormente usado no título – procriar – não tinha a intenção de ofender a quem quer que fosse. Esclareço que ele não foi escolhido tendo como orientação uma raça. Peço desculpa aos que se sentiram ofendidos”. Cabe ressaltar ao veículo e ao jornalista preconceituoso que raça temos apenas uma, que é a raça humana.

Entenda a história de Mariam

A ugandense teve o primeiro par de gêmeos aos 12 anos, logo após ter se casado com um homem 28 anos mais velho. (* De acordo com estimativas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 15 milhões de meninas se casam todos os anos antes de completarem 18 anos de idade – algumas delas pouco depois do décimo ano de vida). De acordo com médicos, Mariam possuía ovários muito grandes, o que fazia com que ela ovulasse múltiplas vezes a cada ciclo e a deixava, obviamente, mais fértil.

Aos 23 anos, Mariam já tinha 25 filhos. Nessa época, ela já solicitava com frequência que os médicos interviessem para que não engravidasse novamente. Os médicos, entretanto, insistiam que o método contraceptivo da pílula anticoncepcional poderia acarretar sérios problemas de saúde, por causa do tamanho dos ovários, e por isso Mariam não se previna corretamente.;

Ao todo, a ugandense teve seis pares de gêmeos, quatro casos de trigêmeos e três outros de quadrigêmeos, além de gestações “mais simples”, com apenas um bebê no ventre.

Comentário da redação do Notícia Preta

O jornalismo tradicional no Brasil é historicamente, e majoritariamente, branco. Nós, mídia negra, temos um papel fundamental em combater essas escritas racistas que desinformam a população, criam e reforçam esteriótipos preconceituosos. Valorizar a mídia negra é valorizar jornalistas e narrativas pretas, combatendo assim a propagação de (des) informações repletas de preconceitos históricos. Valorize a mídia negra!

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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