Homem trans negro fala sobre preconceito e lança canal para ajudar quem quer fazer transição: ‘O trans está sempre em busca de referências’

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Quando o estudante Stefan Rio da Costa, de 24 anos, começou sua transição, há um ano, tudo que ele buscava eram referências. Havia muitas dúvidas sobre as mudanças que aconteceriam com o seu corpo. Mas ele não se via nos casos de transição que tinha acesso. Como homem trans negro, Stefan decidiu, então, compartilhar sua experiência. Foi assim que lançou, há seis meses, o canal Stefan Costa – Trans Boy Life.

“Minha maior dificuldade foi não ter referências. Não desmereço a causa deles. Estamos na mesma luta. Mas é complicado você olhar aqueles garotos brancos, cabelo liso, nariz fino, se olhar no espelho e ver que você nunca terá as mesmas características que eles, porque seu cabelo é crespo, seu nariz é mais largo, sua cor é outra. Todas essas dúvidas sobre como ficariam minha boca, meu nariz e a textura do meu cabelo tive que descobrir sozinho, e continuo descobrindo. A pessoa trans está sempre em busca de referências, até mesmo por conta da falta de informação que temos”, afirma Stefan, que dá dicas, como o processo de transição, o uso do binder (tecido elástico usado para apertar os seios), a retificação do nome na documentação, entre outras.

Desde a infância, Stefan sofreu por não se identificar com seu gênero. Desde os apelidos na infância, a falta de amigos, passando pela não aceitação da família na adolescência, quando se assumiu  lésbica. Mas há um ano, decidiu fazer sua transição. E o preconceito hoje é dobrado: por ser trans e negro.

“Por ser negro, sempre senti essa diferença. Muito antes da transição. Mas agora é totalmente diferente. Você entra nos lugares e as pessoas já te olham de cima a baixo e com um certo ‘receio’ por você estar ali. Quando os traços masculinos ainda não estavam tão evidentes, existiam aqueles olhares de ‘O que você é?’. Uma vez, estava voltando do trabalho e fui revistado por policiais na estação de trem. Nunca havia passado por situação semelhante. Um deles sentiu meu binder e perguntou que ‘porra’ era aquela. Quando expliquei, ele pediu para eu levantar a blusa, me tratou com desdém, riu da minha cara e mandou eu passar porque ‘ele nem poderia estar revistando uma mulher’. Sabendo que isso pode acontecer novamente, que se fosse em um outro lugar eu poderia apanhar ou algo do tipo, bate um certo desespero”, relata Stefan.


Apesar dos olhares e de algumas situações racistas, Stefan, que é morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), procura seguir sua rotina de um jovem comum. Cursa o último período de Direito, faz estágio em um escritório no Centro do Rio de Janeiro e mora com sua noiva. O universitário acredita que muitos LGBTs não se assumem devido às agressões sofridas, principalmente, dentro de casa, no ambiente familiar. 
“Decidi me assumir mesmo porque minha bisavó faleceu, em 2017. Ela sempre me incentivou a ser eu mesmo, independentemente do que as pessoas diziam. Já estava fazendo acompanhamento psicológico na época e tomando coragem para me assumir. O pontapé inicial foi o corte de cabelo. Lembro bem dessa sensação de liberdade. Foi quando eu decidi que não queria mais me esconder para ninguém”, descreve Stefan, que também usa seus perfis no Facebook, Instagram e Twitter para tirar dúvidas, ouvir desabafos e acompanhar conquistas de outros jovens trans. 

Mas Stefan sente que ainda falta um passo determinante para sua transição. Ele quer fazer a cirurgia de mastectomia. Para isso, lançou uma vaquinha que vai até o ano que vem:

“A mastectomia é, para muitos meninos trans, uma liberdade. É algo que sempre me incomodou. Quase não consigo me olhar no espelho. É uma tristeza profunda saber que tem algo no meu corpo que eu não gosto. Por causa disso, já machuquei os seios. Quando eu me olho no espelho e vejo meu peito reto é satisfatório. Até esqueço o que tem por baixo.”

Para contribuir com a vaquinha, é só acessar o link https://abacashi.com/p/stefancosta O valor mínimo para doação é de R$10 e o prazo é até 2020.

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