Feliz velho ano novo

O ano vira no calendário, mas não necessariamente a caminhada começa. Para quem está sempre em busca de interferir no dia a dia e construir realidades presentes e futuras mais justas, a luta já está em round avançado e longe do fim. E dialogar é fundamental, mas também perigoso.

É mais do que comum em conversas, debates ou encontros acadêmicos que os posicionamentos de interlocutores negros – negras, especialmente – sejam considerados raivosos e, neste sentido, desvalorizados como uma falta de capacidade de análise. Há, superficialmente, duas questões aí.

A primeira delas é a necessidade de se ter esperar posturas conciliadoras da comunidade preta. Existe o mito, calcado da ideia de miscigenação, de que o Brasil é pacífico e as situações se resolvem com acordos. Desconsidera-se, claro, o poder das partes envolvidas nas negociações, mas isso é “detalhe”.

Saindo desse registro, que naturalmente se remete ao sentimento de submissão que é atribuído aos negros e mulheres em nossa sociedade construída sobre o escravismo e o machismo, qualquer posicionamento é grosseiro. No inconsciente (ou nem tanto) dos receptores, estão aqui falando comigo, porém são mal-educados (não sabem seu lugar).

O outro ponto é o desmerecimento da raiva como um agente de (des)construção social. Quem não se incomoda com as desigualdades e não se enerva com as injustiças cotidianas, das duas uma: ou as provoca ou delas se beneficia. São diversos os combustíveis para movimentar o mundo.

O mecanismo que transforma qualquer contraponto de um(a) postulante negro(a) em um problema sentimental, reduzindo-o, é parente do senso comum da “ex-mulher louca” do nosso dia a dia patriarcal. O caminho é longo.

Por óbvio, nem todo posicionamento duro é raiva – longe disso – e nem a raiva em si é um problema – é um combustível. Se nos colocamos de maneira dura em um embate intelectual estamos nos entendendo como protagonistas e não figurantes. O nosso texto é a nossa interferência no mundo. Podemos – e devemos.

O ano vira no calendário e o passado parece cada vez mais presente. Não tenhamos medo de ser! O que para outros é despropositado, pra gente é questão de sobrevivência mesmo.

Cipriano Jr

Cursou Comunicação Social (Jornalismo) na UFRJ e atuou como repórter na EBC, no diário Lance! e na MBPress - aqui, produzindo conteúdo para a editoria de esportes dos portais UOL e IG. Atualmente, trabalha como analista na equipe digital da FSB Comunicação. Publica quinzenalmente textos de opinião e ficção em seu espaço no Medium. Twitter: @cizenando_ Medium : @cizenando

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