Entrevista com Gabi Oliveira: sonhos, nova campanha e representatividade “A internet reproduz a estrutura racista da nossa sociedade”

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Gabi de Oliveira é uma das youtubers mais conhecidas do país. Moradora de Niterói, no Rio de Janeiro, formada em Relações Públicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Gabi conquistou espaço na internet com assuntos importantes para a comunidade negra, mas de grande contribuição para o público em geral. Com mais de 585 mil inscritos em seu canal DePretas no Youtube e 400 mil seguidores no Instagram, Gabi estrela a nova campanha da Seda em horário nobre, focada na realização de sonho de meninas de todo o Brasil.

A nova campanha da marca com a participação da influenciadora e ativista social conta com filme publicitário em rede nacional, além de parceria com a ONG Plano de Menina. Idealizado e produzido pela agência Adam & Eve em cocriação com a agência Sunset DDB, o filme, com o mote “Sonhos incríveis demais para não serem realizados”, retrata a história de vida da Gabi em busca de realizar seus sonhos, e como sua relação com seu cabelo e com sua transição capilar foi fundamental em sua vida e em sua atuação como ativista.

Em um papo exclusivo com o Notícia Preta, Gabi fala sobre sonhos, racismo, cultura do cancelamento e como a desigualdade afeta todos os espaços, inclusive a internet: “É uma luta que a sociedade precisa travar, por que uma sociedade igualitária não é bom apenas para os grupos minoritários, é bom para todo mundo. A desigualdade mata talentos, mata potenciais. Um país com menos desigualdade tem mais possibilidade de crescimento”, afirma Gabi.

Noticia Preta: Me conte um sonho seu que ainda não foi realizado.

Gabi Oliveira: Eu ainda tenho alguns sonhos para realizar, alguns coletivos, outros mais pessoais. De imediato eu penso em ser mãe. Já realizei muitas coisas na minha vida, mas esse é um planejamento que eu tenho. Sempre pensei em ser mãe por volta dos 30 anos, estou nessa idade e posso dizer que esse é um sonho. Um sonho coletivo, seria a construção de uma escola voltada para a educação, artes e desenvolvimento infantil em uma comunidade da minha cidade.

NP: As redes sociais têm sido uma vitrine para muitas mulheres, mas infelizmente muita das vezes, as mulheres negras continuam sendo as mais inviabilizadas. O que acha disso?

Gabi: Mulheres negras ainda tem muita dificuldade de sustentarem a sua existência nas redes sociais. As pessoas têm uma tendência a acreditar que as redes sociais são totalmente democráticas, que todos e todas nós podemos criar e fazer sucesso nas redes, mas a realidade não é essa. Como todos os espaços, a internet também reproduz a estrutura da nossa sociedade que é racista, homofóbica e machista.

NP: Você é uma das maiores influenciadoras negras do país. Com a cultura do cancelamento, como lida com as críticas?

Gabi: Sou um pouco crítica quando se fala em cultura do cancelamento. Sempre digo que se você vende a sua influência, você pode ser responsabilizado pela forma que influencia outras pessoas. Muitas vezes, o “cancelamento” é usado como um escudo de proteção contra críticas e eu acho complicado. A gente erra mesmo, e as pessoas precisam apontar os nossos erros.

NP: Na sua opinião o que impede pessoas negras de sonhar?

Gabi: São muitos os impedimentos. Desde sempre, pessoas negras percebem que as dificuldades serão maiores e isso muitas vezes acaba desestimulando. Não se resume a apenas querer, a gente sabe que a estrutura social é um grande impeditivo. Outro ponto é a falta de apoio. Quando a gente vê a trajetória de pessoas negras que conseguiram alcançar os seus sonhos, percebemos que essas pessoas têm um ponto forte de apoio, seja família ou amigos. Acredito que para nossa comunidade muitas vezes falta esse apoio.

NP: Como é a sua rotina de auto cuidado?

Gabi: Meu principal ato de autocuidado é ter uma rotina. Busco estabelecer horários, para ler, meditar, dormir. Mas também busco ter um momento para cuidar do cabelo, usar cremes, esfoliar a pele. Rotina para mim é importante, principalmente nesse momento de pandemia, onde os dias parecem iguais.

NP: E qual é a importância do cabelo na sua autoestima?

Gabi: O cabelo tem uma importância gigantesca quando penso em autoestima. Passar pela transição capilar e conhecer o meu cabelo foi um momento de rompimento na minha vida. Foi quando eu entendi que não precisava seguir nenhum padrão. Nesse momento de transição, eu também comecei a pesquisar sobre questões raciais na universidade, comecei o meu canal e entendi muitos assuntos relacionados. Então ter passado pela transição mudou minha vida por completo.

NP: Qual é a importância de participar de uma campanha de beleza que por muitos anos foi estrelada por mulheres brancas?

Gabi: Sou uma pessoa muito tranquila, não me deslumbro com muitas coisas, mas confesso que foi muito, muito emocionante me ver na TV no horário nobre relacionada com uma marca que sim, teve que passar por um reposicionamento. Desde o início da minha trajetória com a SEDA, nós conversamos muito sobre como eles precisavam se posicionar interna e externamente, e ver essa transformação da marca e fazer parte dessa revolução é muito gratificante. Eu não quero construir essa caminhada de ser a primeira (mulher negra) em algumas situações, quero sim, que tenham mais pessoas negras em campanhas como essa.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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