Em Portugal, apresentadora é vítima de racismo e xenofobia: “Dizem que me prostituí para chegar onde estou”

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A jornalista Conceição Queiroz, âncora do canal português TVI24, utilizou as redes sociais para denunciar ataques racistas e xenófobos que recebe diariamente. Conceição relatou em suas redes sociais que, assim como os recentes casos de racismo contra Maju Coutinho, os internautas atacam sua a competência profissional. Conceição, que nasceu em Moçambique, país do sudeste da África que foi colônia de Portugal até 1975, também é vitima de xenofobia.

“Dizem de tudo. Que me prostituí para chegar onde estou, (mulher africana é burra. Tem de dormir com alguém para subir na vida), que não entendem como me dão trabalho que é só para brancos, ordenam que me vá embora, ligam para o meu local de trabalho a pedir que seja afastada, (atendi uma dessas chamadas), dizem sua preta tiras o lugar aos portugueses, devias ser violada, tens essa boa disposição irritante, andas na ‘coca…“, publicou a jornalista em um desabafo em suas redes sociais.

Conceição Queiroz tem Com 46 anos de idade e 26 jornalismo

Todos os dias lido frontalmente com uma história imunda. Mas isso sou eu, com espírito aguerrido e os antepassados a protegerem. Enfrento-os. A minha preocupação são os outros (igualmente destratados) sem a estrutura que me acompanha. É por isso que não deixo de lutar. Em plena pandemia desejarem-nos a morte. É patológico, mas também maquiavélico. Peço aos agressores que continuem a atacar-me, mas abandonem quem (ainda) não se defende e fica com cicatrizes para o resto da vida. Há quem esteja a comprimidos e em depressão por causa desta clara forma de terrorismo“, escreveu no longo desabafo em uma rede social.

Nas redes sociais, há quem critique a âncora por seu cabelo volumoso e descolorido. Alguns até dizem que ela deve alisar o cabelo. Mas a jornalista, que acaba de concluir um doutorado e pretende em breve seguir para o pós-doutorado, se mantém firme e estimula negros e negras a não desistirem.

Um negro não pode atingir um certo patamar. Podes estar abaixo, muito perto, mas se fazes o mesmo (tão bem ou melhor) és um alvo. Perdão. Há negros bem sucedidos e tolerados, os sem agenda e de espírito servil. Entretanto as notícias são boas: nós negros apostamos ainda mais na formação. Já se riram ao descobrir que estou a tirar o doutoramento. Aos ditos digo que vou seguir para o Pós-doutoramento. Comunidade.. Amados e amadas.. invistam na formação – não é fácil. Trabalhei com orgulho em restaurantes para pagar propinas. Obrigada aos brancos que estão conosco, pois não generalizo. Não baixem a cabeça, não aceitem o desrespeito. Não sejam violentos, mas afirmativos. Honrem a memória dos que lutaram e morreram por nós. Como diz P.Chiziane (referência da literatura moçambicana) Deus não criou África por engano, mas por amor. Não se esqueçam do vosso valor. Não se esqueçam também que não desisto de nós!”

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e com especialização em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, assessora de imprensa e idealizadora do portal Notícia Preta, um site de jornalismo colaborativo. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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