“Ele é ainda muito limitado ao século passado”, diz Ingrid Silva sobre o ballet clássico

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Ingrid Silva (Foto: Angela Zaremba) e Amanda Lima (Foto: James Kondrosky) são dois nomes respeitados no ballet nacional e internacional

O ballet, como um ambiente tradicional e eurocêntrico, é uma arte ainda pouco popular e elitizada. Um número reduzido de pessoas negras têm acesso ou se sentem confortáveis para permanecer nesse ambiente. A bailarina carioca Ingrid Silva afirma que a ausência de visibilidade é dada a um pequeno momento de oportunidade. “Se essas pessoas não têm oportunidades e elas não são expostas, consequentemente, não participam. Elas não sabem que existe. Como é que você se vê em algo que pessoas que se parecem com você não estão?”, questiona.

Ingrid teve seu início na dança aos 8 anos, no projeto Dançando Para Não Dançar, na Vila Olímpica da Mangueira (RJ). Em 2007, ela se mudou para Nova York e, desde 2013, é uma das dançarinas profissionais do Dance Theatre of Harlem. No final de 2019, Ingrid ficou conhecida ao ter suas sapatilhas pintadas à mão expostas no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington D.C. A bailarina pintou suas sapatilhas por anos, para ficarem semelhantes ao tom da sua pele, já que até as vestimentas do Ballet, por muito tempo, não existiram para a pele negra. “Para mim esse momento foi de aceitação e de muito entendimento de que finalmente as pessoas estavam percebendo o ponto de uma sapatilha e uma meia calça da cor da pele. Finalmente as marcas começaram a enxergar essa possibilidade”, afirma Ingrid.

Ingrid Silva pintou suas sapatilhas por anos, para ficarem semelhantes ao tom da sua pele – Foto: Laura Yost

O Ballet elitizado

A modelo, bailarina e professora de dança em Ribeirão Preto (SP), Amanda Lima, ressalta que é necessário uma continuidade nos projetos sociais que englobam o ballet como uma das ferramentas de inserção social. “O ballet está nas escolas particulares ou em projetos sociais que nem sempre tem verba ou continuidade. Mesmo quando uma pessoa preta consegue iniciar na modalidade, ela muitas vezes não se sente pertencente ao meio”, completa.

Amanda iniciou no ballet aos 3 anos. Dando continuidade em seus estudos no ballet, ela descobriu também outras modalidades como o jazz e dança contemporânea. “Minha professora de jazz era negra e, assistindo espetáculos de dança contemporânea, era mais fácil encontrar diversidade ao contrário do ballet”, afirma. 

Formada em educação física pela USP, Amanda se tornou professora de dança, além de ser modelo da marca Evidence Ballet e participar de dois espetáculos no Canadá. No decorrer de sua vida, percebeu que mesmo nunca tendo sido agredida verbalmente, o ballet era um ambiente muito rígido em relação a estética corporal e essa severidade aumentava quando se tratava de pessoas negras. “É evidente que uma determinada característica pode ser mais ou menos prevalente em uma determinada etnia, mas em contexto de tanta desigualdade social, de pouquíssimo acesso e oportunidade às pessoas pretas no ballet, dizer que tudo se resume às características como colo de pé é uma grande mentira”, afirma Amanda Lima.

Amanda Lima é bailarina e professora de dança – Foto: Maria Fernanda Leal

Características para o Ballet

No Ballet Clássico há algumas características físicas que são importantes para as “linhas“ do ballet, chamado de a beleza do formato dos corpos ao realizar os movimentos. Pernas finas, flexibilidade, um corpo magro e joelhos hiperestendidos são características notáveis. “O ballet é muito específico. Não é sobre estar apto e qualificado para atuar em determinada área. Mas sim de você nascer com o pé bonito, com um perfil bonito, ter a técnica e um físico específicos do ballet”, ressalta Ingrid Silva. 

Ainda segundo Ingrid, o racismo no Ballet se encontra no fato de que este é um ambiente composto, em sua maioria, por pessoas mais antigas, que acreditam que pessoas negras não possuem as características essenciais para ser um bailarino. “Essas pessoas não estão aptas para a mudança e para um novo futuro, para que o ballet evolua. Ele é ainda muito limitado no século passado”, completa Ingrid.

Para Amanda Lima, além das características físicas, o que também dificulta a inserção e representatividade de pessoas negras no ballet é que as histórias encenadas, na grande maioria das vezes, trata de personagens brancos e que precisam de um corpo de baile com pessoas que seguem um padrão. Raramente, enquadrando nesse padrão uma pessoa negra.

“Comumente dizem que as pessoas negras não chegam ao alto nível porque não tem características para o ballet, mas a verdade é que temos poucas pessoas pretas que conseguem acessar esse espaço, é um mundo elitista caro e no qual muitas vezes você não se sente confortável.” – Amanda Lima

Amanda ressalta ainda que, com o tempo, o ballet aperfeiçoou muito sua técnica, “porém não mudou sua forma de pensar e criar, mantendo sua essência racista e eurocêntrica. Eu sempre soube que a minha figura chamava atenção, ser alta e preta entre tantas meninas brancas fazia as pessoas olharem pra mim, eu sabia também que eu teria que provar ser boa”, afirma Amanda. Ela conclui dizendo o quanto é difícil lidar com isso, ter que ser melhor para tentar se equiparar e procurar formas de burlar o racismo. 

Ingrid Silva completa dizendo que sua maior visibilidade é estar presente nos palcos e fazer o que ama e que apenas quando atingiu sua carreira profissional percebeu que há uma presença majoritariamente branca nas companhias, tendo pouquíssimos bailarinos negros, principalmente no Brasil. “Eu sou muito exigente comigo mesma, e ser essa inspiração, ser essa pessoa que um dia eu não fui para mim quando eu era pequena, é muito especial”, finaliza.

Nota Ismael Ivo

Na última quinta-feira (8), morreu o bailarino e coreógrafo Ismael Ivo, 66 anos, vítima de complicações em decorrência de um quadro de Covid-19. Ele foi o primeiro diretor negro do Ballet de São Paulo e conseguiu romper com padrões e inserir nesse espaço pessoas negras, periféricas e LGBTQIA+.

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