“É preciso falar para além das nossas bolhas. Há setores da esquerda que ficam num lugar arrogante”, diz Djamila Ribeiro

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Aos 41 anos, a filósofa, ativista e escritora Djamila Ribeiro é um dos principais nomes brasileiros da luta antirracista. A professora da PUC-SP, especialista em feminismo negro, tem seus livros em escolas e livrarias do Brasil e do mundo.

Neste domingo (05), em entrevista a Ecoa, Djamila falou sobre seu novo livro, “Cartas para minha avó” (Companhia das Letras), os avanços e retrocessos na conquista de direitos da população negra no Brasil, a necessidade dos movimentos de esquerda se voltarem para o trabalho de base nas periferias e declarou que não descarta, no futuro, entrar para a política: “Nunca diga nunca”.

Em um momento de efervescência política, a análise da filósofa sobre o país polarizado passa pela necessidade do diálogo:

É preciso falar para além das nossas bolhas. Há setores da esquerda que ficam num lugar arrogante: “Ah, é todo mundo burro, não sabem de nada”. Ficam romantizando a pobreza como se o nosso objetivo não fosse justamente o enfrentamento da pobreza. Não é legal ser pobre. As igrejas evangélicas estão ganhando espaço nas periferias porque muitas vezes cumprem o papel do Estado e oferecem o discurso da prosperidade: “Você vai melhorar de vida”. Muitas vezes o cara negro na periferia, com terno e a Bíblia debaixo do braço, não é abordado pela polícia. Há uma diferença entre política de identidade e identidade política. O cara na periferia pode ser pobre, mas homofóbico. Aí ele se identifica com [o presidente Jair] Bolsonaro (sem partido) porque é homofóbico. A dona de casa pode ser pobre, negra, mas evangélica. Ela vota no Bolsonaro porque “ele vai defender os valores da igreja”. As pessoas de fora não entendem essas questões e ficam na posição de: “Ah, ele é evangélico, não vou conversar com ele”

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Quando questionada sobre uma possível entrada na política partidária, Djamila deixa uma dúvida no ar:

Em 2016, trabalhei na gestão do [ex-prefeito de São Paulo Fernando] Haddad (PT) como secretária adjunta de Direitos Humanos. Nesse momento, não tenho nenhuma vontade de me candidatar a nada, estou totalmente focada nos projetos editoriais e na vida acadêmica. Mais para frente, pode ser que me interesse. Quem sabe?

A coordenadora da Coleção Feminismos Plurais, da Editora Jandaíra, também revelou até dezembro deste ano serão lançados dois títulos: “Trabalho Doméstico”, escrito pela professora Juliana Teixeira, da Universidade Federal do Espírito Santo, e a tradução para o português de “Black Power”, do Stokely Carmichael [um dos líderes do movimento por direitos civis dos anos 60 nos EUA].

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