Dia Mundial da Saúde Mental e a população negra no Brasil

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Foto: Nappy

Desde o assassinato de George Floyd, em 2020, e com o movimento `Black Lives Matter’ novamente em evidência no mundo inteiro, a afirmação “Todas vidas importam” apareceu como oposição às manifestações que gritavam a urgência de se proteger corpos historicamente marcados pelo racismo, corpos pretos sequestrados, explorados, torturados e objetificados. Esta afirmação aparece com um pretenso ar de neutralidade, mas, na verdade, acaba por contribuir para a manutenção do racismo e a sua reprodução sob inúmeras formas de violência, seja ela física, emocional, mental, moral, social ou espiritual.

Das muitas formas de se adoecer em função dos impactos do racismo está o adoecimento psíquico. Não reconhecer a sua existência e a influência do mesmo na vida cotidiana de um indivíduo negro, é manter ou aumentar seu sofrimento na medida em que toda a sua subjetividade já é atravessada desde sempre por situações de iniquidade, subjugação, negligência e apagamento físico ou simbólico nos espaços de estudo, de trabalho, de lazer, e de moradia.

Na construção da subjetividade da pessoa negra, dada a constante desqualificação de sua história, suas origens e seu povo, não é incomum a experiência de sentimentos de inferioridade, baixa autoestima, vergonha, culpa, medo, ansiedade, insegurança, inadequação e autocobrança ao longo da vida. Essa condição, portanto, é o que pode tornar esse sujeito mais vulnerável ao adoecimento psíquico.

Os dados do Ministério da Saúde, de 2016, último ano de compilação, mostram que de cada dez suicídios ocorridos no Brasil, seis foram cometidos por negros. Segundo a Cartilha “Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016”, feito pelo Ministério, as principais causas de suicídio são a desigualdade étnico-racial e o racismo institucional. Ambos são considerados determinantes sociais de condição de saúde.

Afirma a Cartilha que para “cada 100 suicídios em adolescentes e jovens brancos ocorreram 145 suicídios em negros; isto é, em 2016, o risco de suicídio foi 45% maior em adolescentes e jovens negros comparados aos brancos…” Algumas das principais causas de suicídio estão relacionadas à ausência de sentimento de pertença, solidão e à não-aceitação da identidade racial. A própria Cartilha afirma ainda: “O sentimento de pertencimento a uma comunidade funciona como um amortecedor essencial contra os efeitos negativos da solidão e da baixa aceitação.”

O racismo organiza e planeja as formas de fazer políticas públicas para a população negra. Ela é a que, em geral, mais lida diariamente com problemas decorrentes da parca representatividade nos espaços sociais, da precariedade de moradia e prestação de serviços, da educação de baixa qualidade, da precariedade nas relações de trabalho e pouca oferta de emprego, da mobilidade urbana deficiente, da violência policial, da dificuldade de acesso à serviços de saúde de qualidade e outros.

Há uma quantidade de elementos estressores produzidas e mantidas pelo Estado brasileiro que precisa ser conhecida, reconhecida e levada em conta, com a maior urgência, no momento da prestação de cuidados à pessoa negra, mas igualmente quando da formulação e implementação de políticas públicas voltadas para a população negra como forma de finalmente promover condição de saúde, bem-estar e uma cidadania plena de direitos.

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