Como canais de denuncia auxiliam na luta antirracista?

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*Por Iane Pessoa e Letícia Marcondes

O Brasil é um país formado majoritariamente por pessoas negras. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 56,1% da população se auto identifica como preta ou parda. Nos últimos dois anos, por impulsionamento da sociedade por conta de acontecimentos racistas que marcaram a história como George Floyd, nos EUA, e João Alberto Silveira Freitas, no Brasil, as empresas passaram a dar ênfase em políticas de diversidade e inclusão. Algumas perguntas que ficam são: elas têm sido realmente efetivas? Como se dá a retenção de profissionais negros? É possível denunciar casos de racismo dentro dessas empresas?

Foto: Freepik

Algumas organizações, como a Magalu e a Ambev, lançaram processos seletivos voltados apenas à comunidade negra. Contudo, esta não é a realidade da maioria das empresas. A Pesquisa de Tendências no RH em 2022, produzida pela Catho em parceria com a Reconnect, 60% dos Recursos Humanos das empresas não tem um programa de diversidade e inclusão para os colaboradores e apenas 25,7% pretendem aumentar o investimento nesse quesito em 2022.

Sem fomentar espaços seguros para esses colaboradores, as dificuldades em reter talentos negros só aumentam. Uma pesquisa da Indeed em parceria com o Instituto Guetto mostra que 47,8% dos profissionais negros não têm senso de pertencimento nas empresas em que trabalham ou trabalharam e, dentre os respondentes, 60% já sentiram discriminação racial no ambiente de trabalho.

De acordo com o estudo “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira 2021”, também publicado pelo IBGE, o mercado de trabalho corporativo está longe de refletir os números de pessoas negras como maioria dentre seu quadro de empregados. A população negra é maioria entre os desempregados, representando 46% deles; existe uma diferença salarial que ultrapassa os R$1.200,00 e a é maior parte dentre os que se encontram em situação de subutilização e informalidade.

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O racismo no ambiente corporativo é uma realidade cruel para a maior parte das pessoas colaboradoras negras. Isso porque ao pensar nas políticas de D & I é necessário ênfase  na segunda palavra que forma a sigla: a inclusão. Para a criação de um espaço seguro, é preciso não só fomentar treinamentos com toda a equipe (desde o C-level) para um processo de aculturamento, como também um Código de Ética voltado para questões etnicoraciais que assegure um canal de denúncias e a responsabilização de casos de racismo dentro da empresa.

Esse canal de denúncia, que apresenta a possibilidade do anonimato, quando trabalhado dentro da organização pode ser um grande aliado na luta antirracista – tanto para tratamento de problemas atuais quanto na prevenção de futuros. Não basta apenas o desenvolvimento do Código e do canal, mas também dar as devidas punições aos protagonistas e a defesa das vítimas.

* Iane Pessoa é especialista em D&I da Condurú Consultoria, ativista social, defensora dos Direitos Humanos e graduada em Serviço Social.
* Letícia Marcondes é coordenadora de marketing da SafeSpace, uma plataforma de compliance para gestão de má conduta nas empresas. 

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