Feminismo, Feminismo Negro E Instrumentalização Política

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Por Cristina Tadielo*

O feminismo é um fenômeno social que objetiva a equidade de direitos e o equilíbrio social entre homens e mulheres na perspectiva humana. Tem também no horizonte o foco da mulher como ser político, autônomo e emancipado direcionando a luta pela extinção de estigmas de construções patriarcais. 

Com a escritora, filósofa existencialista e ativista política francesa, Simone de Beauvoir, o feminismo ganhou destaque e força na década de 40, fomentando discussões acerca da posição das mulheres nas relações entre os gêneros. Todavia, Grada Kilomba escritora, ativista, psicóloga, teórica portuguesa trouxe o particular questionamento acerca de qual mulher se está falando.

Sob o foco geral do feminismo, mulheres tiveram que lutar por direitos, como por exemplo, o de trabalhar. Mulheres negras, no entanto, há muito e desde sempre, já lutavam por dignidade no trabalho e no seu cotidiano. 

A prática de apagar a existência da mulher negra como um segmento social idenitário, e com peculiaridades próprias, é recorrente e enfática, ainda que dentro do movimento feminista. A experiência histórica entre mulheres brancas e negras, bem como suas consequências, foram explicitamente diversas e a história da mulher negra foi levada a desconsideração. Nem homem e nem branca, a mulher negra tem multiplicada a jornada de embates diários. 

Estruturada pela violação colonial no Brasil que hierarquizou gênero e raça, a dupla discriminação social de ser mulher e negra, infere, naturaliza e romantiza violências das mais diversas. A violação colonial e a miscigenação originam as construções da identidade nacional e da falsa igualdade/democracia racial. 

Mulheres negras se movimentam desde o período colonial. Por necessidade de sobrevivência ao regime escravocrata, desenvolveram estratégias e articularam várias ações de libertação dos seus além dos cuidados espirituais, lideranças em quilombos, trabalhos nas cidades e a estruturação de suas famílias. 

Diariamente observa-se o quanto as relações sociais são permeadas pelos reflexos da herança escravocrata. A população negra padece da falta de oportunidades, pela violência e pelo racismo. A mulher negra na base da pirâmide social, trava duplamente essa luta.  

Neste sentido, é evidente, pontual e forçoso o recorte a que se faz; o feminismo negro como o grande aliado para a discussão sobre as opressões da mulher negra e como fator de instrumentalização política.  

Protagonizar mulheres negras no cenário político social é dar força na determinação de mudanças necessárias no combate à discriminação, opressão, segregação e racismo. Mulheres negras assumindo tais papéis, assumem as rédeas das suas próprias história. Histórias essas que só elas sabem contar e, assim, criar novas narrativas. 

Neste viés, importante o conhecimento consciente, a informação e a busca pela ocupação de espaços principalmente políticos. Tal movimentação contínua faz com que a discussão se qualifique, as ações se efetivem e o feminismo negro alcance suas prerrogativas buscadas desde o tempo do Brasil colonial.  

Politizar a luta feminista negra torna a mulher um sujeito organizacional e de força emergencial na busca pela equidade. Desenvolver ações afirmativas possibilita a conscientização de realidades fáticas, de força motriz e de novos olhares na construção de um novo modelo social. 

Desta forma, o alcance não vem pelo grito, mas pela impressão política de discussões renovadas para as quais tem-se experiência histórica e cotidiana.

Cristina Tadielo é Advogada, Educadora Psicopedagoga Especializanda em Direitos Humanos e relações Étnicos Raciais; Pós-graduanda em História e Cultura Indígena e Afro brasileira

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1 Comment

  • Raquel Santiago

    (03/10/2020 - 10:15)

    Quanta lucidez, força e coragem em casa letra, vírgula, palavra, frase. Meus parabéns, Cristina Tadielo, a sua fala, posionamento e conhecimento são de extrema importância.

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