Casal sofre racismo por motorista de aplicativo no Rio: “Tivemos que descer do carro igual bandido, com as mãos pra cima”

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Durante a viagem o condutor parou o veículo próximo a policiais para dizem que jovens eram suspeitos.

João Batista e o namorado Matheus Barcelos

Entrevista Exclusiva Notícia Preta

Um casal acusa um motorista de aplicativo de cometer racismo após o condutor, durante a corrida, parar de frente a policiais e alegar que os jovens eram “suspeitos”, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.

Em entrevista ao Notícia Preta, João Batista conta que, na terça-feira (15) junto com o seu namorado Matheus Barcelos, solicitou uma corrida através do aplicativo Uber na Praça Mauá, Zona Portuária. “Estávamos vindo de um evento no Youtube Space. Produzimos conteúdo para internet, então estamos sempre por lá. Por conta disso, chamamos o uber.”

João relata ainda que ao entrar no uber nada de anormal aconteceu. “Assim que entramos no uber, o motorista nos cumprimentou e foi muito simpático, deu boa noite e perguntou para onde íamos. Respondemos que íamos para São Gonçalo e ele respondeu: ‘Ah, que bom! Moro lá também’.

Contudo, segundo o casal, logo após cinco minutos de viagem ocorreu o episódio. “Estávamos perto da Gamboa e ele viu uma viatura e simplesmente saiu do carro desesperado, indo em direção aos policiais e gritando que tinha dois suspeitos dentro do carro.”

Segundo João, neste momento ele e seu namorado, Matheus entraram em pânico: “Na mesma hora ficamos desesperados. Porque, como todos sabem, a polícia carioca tem sido letal para o jovem negro.” relata.

Quando ouvimos os policiais mandando a gente descer do carro, apontando a arma para a gente, pensei: Morri.”

João Batista

João afirma não saber o que pode ter motivado o ocorrido visto que, aos olhos dele e do parceiro, não fizeram nada e acredita que o episódio foi motivado por uma questão racial.

“Sei que pode parecer exagero, mas vemos tantas coisas ruins acontecendo recentemente, que quando acontece algo assim, logo pensamos “é o nosso destino”. Sei que é pessimista, mas foi como me senti”, lamenta o rapaz.

Após os gritos do motorista, o casal teve que descer do carro, com as mãos para cima e foram revistados. “Tivemos que descer do carro igual bandido, igual marginal, com as mãos pra cima, tendo que levantar a camisa, tendo que revistar a gente. E não estávamos com nada, estávamos só com uma pochete, com itens pessoais – cartão, documentos, até uma escova de dente e o Matheus estava só com o celular dele, os documentos dele estavam comigo.” continua João. “E foi um desespero. Pois tínhamos que provar para o policial o que era óbvio para a gente, não tínhamos nada de suspeito”.

Enquanto o procedimento acontecia, os rapazes disseram que o motorista estava ao canto assistindo, rindo e debochando: “Vocês estão nervosos por que? Quem não deve não teme!”. Neste momento, os dois resolveram agir.

Nos vimos vítimas de uma injustiça muito, muito grande. E só depois que os policiais revistaram e abaixaram as armas decidimos: Vamos filmar isso!”

João Batista

“Assim que arma abaixou e pegamos nossos celulares e pensamos: vamos filmar! Não pensamos em fazer uma denuncia formal pra uber, fomos direto aonde nós sabíamos que teríamos um retorno muito mais imediato e muito mais impactante que era na internet”, conta João.

O vídeo relatando o acontecido viralizou nas redes sociais e apontando a placa do carro, o rosto do motorista causador do episódio e mais alguns prints, mostrando o pedido de viagem no aplicativo de corrida. No dia seguinte, o casal registrou ocorrência contra o motorista na Delegacia de Crimes Raciais, onde a polícia investigará o caso como preconceito racial motivado por intolerância.

“Ouvimos histórias horríveis sobre esses aplicativos e é algo comum, não estamos fazendo uma dramatização em cima de nada. Estamos fazendo para que as pessoas não tenham medo de relatar suas experiências em uma plataforma que não é tão confiável assim.” explica João Batista.

Em nota, a Uber lamentou o episódio e afirmou que prestou apoio às vítimas e que bloqueou o motorista da plataforma.

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Gabriella Reis

Jornalista, escritora e web-redatora. "Se ninguém te escuta, escreva!"

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