Carnaval 2019 exalta a história do povo negro através de diferentes enredos de escolas de samba

Em meio à onda conservadora que elegeu um presidente de direita e exaltou políticos que se dizem a favor “do cidadão de bem”, mas colaboram com o genocídio do povo negro, o Carnaval 2019 chegou para mostrar a força do povo que construiu e constrói esse país.

Com o enredo “História para ninar gente grande”, a Estação Primeira de Mangueira ganhou o prêmio Estandarte de Ouro, oferecido pelo jornal O Globo, de melhor escola do Grupo Especial em 2019. A verde e rosa carioca levou para a avenida enredo que recontou a história do Brasil por meio de heróis da resistência negros, indígenas e mulheres ao longo dos séculos após o descobrimento.

Mangueira encerrou o desfile em ala com bandeiras de ícones da escola – Foto: André Gomes de Melo

“A falta de conhecimento da história gera uma nação que não se reconhece como protagonista de absolutamente nada. Quando não são destacados nas páginas dos livros de história, essas figuras acabam não sendo popularizadas no inconsciente coletivo”, diz Leandro Vieira, carnavalesco responsável pelo enredo.

A Mangueira resgatou em seu desfile nomes pouco falados na história que aprendemos na escola, como os da guerreira negra do século XVII Dandara ou dos rebeldes indígenas Cariri, e afirma que a colonização portuguesa no Brasil foi “mais invasão que descobrimento”.

Família de Marielle Franco desfila na Vila Isabel – Foto: Rodrigo Gorosito/G1

A Verde e rosa também homenageou a vereadora Marielle Franco assassinada em março do ano passado. Mas foi na Vila Isabel que a família de Marielle veio em destaque no último carro, que representou o mal da escravidão que afligiu o Brasil. A filha, Luyara Franco, a irmã, Anielle Franco e  Antônio Francisco, pai da vereadora, representaram a emancipação e poder femininos – em especial da mulher negra, como defendia Marielle – e dos movimentos negros de todo o país.

A família da vereadora também foi destaque na paulistana Vai-Vai, a maior campeã do Carnaval de São Paulo com 15 títulos, que apostou no enredo “Vai-Vai, o Quilombo do Futuro”, desenvolvido pelos carnavalescos Hernani Siqueira e Roberto Monteiros.  A escola do bairro do Bixiga fez uma ode ao povo negro desde a concentração, onde o presidente Neguitão animou a torcida com o grito de ordem “Todo o poder ao povo negro!”.

Na Vai-Vai, exploração do povo negro é retratada em uma das alas – Foto: Fabio Tito/G1

Os negros estiveram representados ao longo de todo o desfile da Vai-Vai. Na comissão de frente mostrou personagens bíblicos interpretados por negros. A estreante, Erika Januza se apresentou fantasiada de Inaê, Rainha do Mar. Ela veio na frente de um carro alegórico que representava um navio negreiro. As alas seguintes representaram a revolução no Haiti e o regime do Apartheid, que promoveu a segregação racial na África do Sul. O movimento americano dos Panteras Negras foi homenageado no terceiro carro, destacando a luta contra o preconceito nos Estados Unidos.

A história norte-americana seguiu sendo retratada no carro seguinte, com uma enorme escultura do ex-presidente Barack Obama. Este carro contou com 23 convidados negros, como as escritoras Djamilla Ribeiro e Kênia Maria, e os atores Yuri Marçal, Érico Brás e Cacau Protásio, e a filha e a irmã da vereadora Marielle Franco.  A última das 26 alas trouxe convidados como os atores Ícaro Silva e Adriana Lessa e os rappers Rincon Sapiência e MC Soffia.

Salgueiro faz homenagem à Xangô na Sapucaí – Foto: Guito Moreto

A carioca Acadêmicos do Salgueiro exaltou a cultura negra com o enredo “Xangô”, desenvolvido pelo carnavalesco Alex de Souza. Conhecido como Orixá da Justiça, da sabedoria e rei de Oyó, nas religiões de matriz africana, a escola traçou um paralelo entre Xangô e a justiça brasileira, destacando que a corrupção não vem de hoje, reina no país desde os tempos imperiais.

Xangô é um santo sincrético. Ou seja, dialoga com diversas crenças e culturas, do candomblé ao catolicismo. Sendo assim, outras representações religiosas ganharam destaque no desfile, incluindo o papa, que foi representado pelo ator Ailton Graça em um papamóvel com direito a seguranças de terno, gravata e óculos escuros.

Na Sapucaí a Paraíso do Tuiuti também exaltou os negros em seu desfile ao trazer em seu último carro intitulado “Bode da Resistência”, a escritora Conceição Evaristo, a médica e diretora executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck, a jornalista Flávia Oliveira e o babalorixá Adailton Moreira.

Salgueiro – Aqui o Papa é preto!’, disse Ailton Graça ele desfilou numa réplica do Papamóvel – Foto: Márcio Alves

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