Apesar de ser uma doença evitável, o câncer de colo do útero continua entre os principais desafios de saúde pública no Brasil, especialmente no Nordeste. A região concentra a segunda maior incidência da doença entre as mulheres, atrás apenas do câncer de mama, desconsiderando os casos de pele não melanoma.
Segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 19.310 novos casos da doença em 2026. No Nordeste, a previsão é de 6.130 novos diagnósticos por ano. A Bahia lidera o número de ocorrências na região, com estimativa de 1.370 novos casos anuais.

Para a oncologista Luciana Landeiro, os dados refletem desigualdades estruturais no acesso à prevenção. “Esses números refletem a desinformação e a desigualdade de acesso aos exames de rastreamento, o que acaba por desencadear muitos casos de diagnóstico tardio de uma doença que é completamente evitável”, afirma. Segundo a especialista, o Março Lilás reforça a importância da prevenção por meio da vacinação contra o HPV e da realização periódica de exames.
Cerca de 90% dos casos de câncer de colo do útero estão associados à infecção persistente por tipos de alto risco do Papilomavírus Humano, especialmente os subtipos 16 e 18. A transmissão ocorre principalmente por relações sexuais sem proteção.
De acordo com o oncologista Daniel Brito, a imunização é a principal estratégia de prevenção. “A vacina contra o HPV é a principal aliada para prevenir o câncer de colo do útero, além de proteger contra outros tipos de câncer relacionados ao vírus”, explica.
Além da infecção pelo HPV, fatores como tabagismo, início precoce da vida sexual e sexo sem proteção podem aumentar o risco de desenvolvimento da doença, segundo a oncologista Camila Kelly Chiodi.
Estudos internacionais indicam que a vacina pode reduzir em até 87% o risco de desenvolvimento do câncer de colo do útero, especialmente quando aplicada na adolescência. A imunização também pode reduzir em 62% a mortalidade associada à doença.
Pesquisa realizada entre 2019 e 2023 por cientistas da Fiocruz, com apoio da Royal Society e do CNPq, analisou dados do Sistema Único de Saúde de mais de 60 milhões de mulheres por ano, na faixa de 20 a 24 anos. Publicado na revista The Lancet, o estudo concluiu que a vacinação reduziu em 58% os casos de câncer do colo do útero e em 67% as lesões pré-cancerosas graves.
Outro avanço na prevenção é o teste molecular DNA-HPV, que já está em implementação no Sistema Único de Saúde. O exame é capaz de identificar 14 genótipos do vírus e detectar precocemente a infecção, antes do surgimento de lesões.
A Organização Mundial da Saúde recomenda o teste como exame primário de rastreamento. No Brasil, o Ministério da Saúde orienta que mulheres entre 25 e 64 anos realizem o acompanhamento periódico. Na ausência de infecção pelo HPV, o exame deve ser repetido a cada três ou cinco anos.
Com vacinação ampliada e rastreamento adequado, especialistas apontam que o câncer de colo do útero pode ser controlado e, a longo prazo, erradicado.










