Alê Santos chama atenção para aprofundamento da pesquisa para o livro

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Publicitário de formação, Alê Santos mergulhou de cabeça no processo de pesquisa para fazer seu primeiro livro Rastros de resistência, que é baseado nas threads* publicadas por ele no Twitter. O resultado é uma obra de 136 páginas que traz um conteúdo de relevância histórica importante para a construção da identidade brasileira. O sucesso é tão grande que já está sendo feita a segunda tiragem.

“O meu livro é baseado nas minha threads, mas quando eu escrevo para o twitter é mais entretenimento do que literatura, não tem espaço para explicar muitas coisas, é mais para provocar um conhecimento histórico. Na literatura, não. Eu tenho que explicar, trazer referência bibliográfica, e a editora confrontou muito com isso”, comenta Alê, que já escreveu para um blog sobre games e sobre moda antes de enveredar pelos 140 caracteres.

“Nós fizemos quatro ou cinco revisões, teve uma revisão histórica muito apurada. A minha bibliografia ia aumentando exponencialmente a medida que a gente revisava, confrontando as datas. Quem me acompanha pelas threads vai encontrar várias informações revisadas, editadas ou cortadas. Fora a revisão gramatical”.

Saber aliar informação com as ferramentas disponíveis pelo Twitter fez com que @Savagefiction conquistasse não só quase cem mil seguidores, como também o coração dois dos fundadores da rede social, Jack e Biz Stone, que vieram ao Brasil para um painel sobre a empresa. O trabalho de Alê Santos, para ele, é uma referência em produção de conteúdo na plataforma.

Tal façanha fez com que a responsabilidade sobre as publicações aumentasse, por causa da repercussão que causava. Nada que assuste o publicitário, que começa a colher os louros de uma dedicação que começou em 2009.

Alê Santos e os fundadores do Twitter

Notícia Preta: Como é para você ocupar um lugar tão importante nessa rede social, a ponto de ser conhecido e reconhecido pelos criadores da plataforma?

Alê Santos: É uma responsabilidade ocupar um lugar. Não sei se todos têm essa percepção, mas eu tenho a percepção do impacto das coisa que falo e de como escrevo no meu perfil. Muita gente usa como referência, toma como verdade, e muita gente se apoia na minha rede, vem falar comigo de como aquilo tem impactado na vida deles. E cada vez que alguém me conta como minhas histórias impactaram na vida íntima e a sua intelectualidade, me dá mais noção que eu preciso entender mais o impacto que eu faço nas pessoas. Eu tenho essa sensação, fazer uma comunicação não violenta, que é empática, que acredita na transformação social, do indivíduo, todas essas virtudes.

Notícia Preta: Como você ver o Black Twitter?

Alê Santos: Não acho que exista mais o Black Twitter, nem como intenção nem como grupo. Eu sei que existem vários negros influentes atuando ali, além dos jornalistas negros, assim como vocês (Notícia Preta), mas não sei se existe um grupo, são vários. Assim como o movimento negro é formado por várias vertentes, várias perspectivas – você tem a galera negra que é mais comunista, outra que é mais ligada ao capital, outra que é ligada a correria da música etc. Tem um universo muito grande de uma galera preta que tem a possibilidade de coexistir, mas a gente ainda não está organizado nem olhando para uma coisa só ou colaborando um com o outro para que a gente possa expandir ou potencializar o poder comunicacional de toda a comunidade negra.

Notícia Preta: Como usar a representatividade como alavanca para ocupar espaço de poder?

Alê Santos: Alcançar a representatividade no Twitter mudou a minha vida, não quer dizer que 90 mil seguidores signifique 90 mil Reais na minha conta. Isso está muito longe de acontecer, mas o que mudou foi a perspectiva, toda vez que eu escrevo são pessoas que me dão novas oportunidades; esses acessos me dão novas perspectivas, como escrever o livro, sites importantes, dar palestras, viajar o Brasil… Eu viajei no último ano mais do que imaginei que viajaria a minha vida inteira por conta da minha atuação na plataforma. Essa expansão de perspetiva é o que mantém a mesma correria de pagar as contas. Eu sou do interior, um mundo pequeno para quem é da área de comunicação e escritor, essa movimentação foi uma revolução para mim.

Representatividade por si só não faz diferença, tem muito influenciador negro que tem representatividade, mas que uma hora ou outra some porque não paga as contas, não muda o seu mundo individual… Você precisa transformar representatividade em oportunidade sólida, isso é um desafio para todo mundo que eu conheço. Expandir a nossa atuação não só na plataforma, acessar as oportunidades na TV, no entretenimento, no local de trabalho, mesmo que seja empresa, para poder entrar e incluir mais pessoas também.

A gente vive num mundo que sempre tentou silenciar as vozes negras, porque os movimentos negros estão há séculos gritando mas eram suprimidas pelos grandes veículos de comunicação. Hoje nós temos a oportunidade de gritar igual ou mais alto que os grandes veículos de comunicação, e podemos utilizar essas redes que nos ajudam a potencializar voz, mostrar o que não estão vendo, nossas lutas e ideias, acontecimentos da nossa vida para, quem sabe, sensibilizar quem não está com as pautas negras.

*Sequências de posts usadas para contar uma história e construir uma narrativa. A estratégia é muito utilizada pelo fato da plataforma limitar o número de caracteres por publicação.

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Lídia Michelle Azevedo

Formada em Comunicação Social - Jornalismo pela UFRJ, em 2009, já passou pelas redações do Jornal dos Sports, Assessoria de Imprensa do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiencia) Revista Ferroviária, Expresso, Extra, Canal A e atualmente está na assessoria de comunicação da Fundação Cecierj.

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