Ale Santos: a história do povo negro no Twitter

O ensino da história e cultura afro-brasileira é obrigatório pela Lei 10.639/03 em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. O Brasil tem a maior população de origem africana fora da África, sendo diretamente influenciado por esse continente em suas culturas e religiões. A história da África não se resume ao tráfico negreiro que aprendemos na escola, que sequestrou cerca de 4 milhões de pessoas que aqui aportaram ao longo de 300 anos. Quantos personagens negros, incluindo os literários, vem a nossa lembrança?

Movido pelo sentimento de exclusão, o pesquisador Ale Santos (@Savagefiction) começou a contar, a partir de threads (recurso no Twitter no qual é possível conectar diversos tweets em sequência), histórias do povo negro que geralmente são esquecidas e não ganham espaço – seja nas próprias escolas ou na grande mídia. “Eu não me enxergava em qualquer programa de TV, filme ou desenho animado. Mas encontrei nos livros da biblioteca velha da escola pública algumas coisas que me interessaram e que abriram portas para mundos desconhecidos por mim. Desde então eu desenvolvi esse tipo de sentido para encontrar histórias novas”, conta Ale quando perguntado sobre a origem da sua vontade em tornar de mais fácil acesso tais histórias.

Reprodução: Instagram

 

Além de pesquisador, Ale é autor de cultura afroamericana. Colunista na Vice, escritor no Muito Interessante, já colaborou com The Intercept Brasil e Super Interessante. E ainda encontra tempo para palestrar em eventos internacionais, sendo consultor de gamificação para startups. Entre seu extenso currículo, as suas narrativas no Twitter encontram o espaço para já terem alcançado mais de 5 milhões de visualizações: “Quando fiz a primeira thread meu objetivo era só escrever despretensiosamente. Não pensei em nada, apenas queria contar para alguém uma visão minha de uma história”. Através dos retweets, as visões e histórias de Ale foram se tornando populares: “Na terceira thread eu atingi 1 milhão de visualizações em apenas 1 tweet, ganhei vários seguidores e, claro, gostei dessa sensação. Comecei a me dedicar a trazer mais histórias como essa”, conta.

“Hoje eu tenho um objetivo claro, eu quero ajudar a reconstruir o imaginário popular  destruindo os estereótipos racistas e trazendo informação para o máximo de pessoas que eu puder atingir.” 

A primeira thread que bombou foi sobre o holocausto negro no Congo, promovido pelo rei belga Leopoldo II, no começo do século 20.  A ordem do rei belga era lucrar muito com pouco investimento, e isso significava não se preocupar com a folha de pagamento. Muitos oficiais belgas foram enviados ao Congo, após previamente estudarem um “Manual”, onde se ensinavam as “técnicas” de como subjugar o povo. No dizer do próprio autor, “poucas vezes a história nos oferece uma chance como essa de ver instruções detalhadas de como executar um regime de terror”. No livro “O Fantasma do Rei Leopoldo”, do autor Adam Hochschild, pode-se observar uma fotografia onde um oficial belga exibe o seu “jardim de crânios”, que consistia em uma cerca ao redor de sua casa, toda construída com cabeças africanas decepadas.

Para Ale, o Brasil passa por uma alternância da consciência para uma aproximação da consciência racial. Manifestações contra o whitewashing (termo que significa embranquecimento, principalmente na indústria cinematográfica, de personagens fictícios ou históricos) se tornaram mais comuns e ganharam maior destaque. Em 2017, pela primeira vez, a busca por cabelos cacheados ultrapassou a por cabelos lisos no Google. Nomes como o de Lázaro Ramos atingiram maior sucesso. Porém, casos lamentáveis ainda são destaque em nosso país, como o recente vídeo do estudante de Direito Pedro Bellintani, que gravou em seu carro em 28 de outubro, quando seguia para votar no segundo turno das eleições, ameaçando: ‘a negrada vai morrer’.

Ale se denomina como um negro de pele clara com traços negróides fortes (como seu cabelo e boca), o que foi alvo de ataques em sua infância. Ainda hoje, passa por situações de racismo: “Hoje o estigma do suspeito ainda me atinge, não consigo passar em um shopping sozinho sem ser perseguido. Quanto mais caro é o shopping, mais intenso é. Meses atrás marquei um encontro com o Erick Krominski em São Paulo, sentei para tomar um café enquanto ele não chegava e o segurança se posicionou ao meu lado, porque eu estava no celular tuitando.”

Felizmente, além do apoio de seus seguidores comuns, Ale também ganhou o reconhecimento de nomes famosos, como Emicida, Rashid e Marcelo D2.

 

Importância da representatividade negra

“Eu vejo que trazer uma visão afrocentrada das nossas histórias correspondem a essa necessidade de se enxergar através do interlocutor. Uma busca pela empatia com quem está produzindo o conteúdo e quando esse movimento recebe um suporte histórico e leva novas figuras para a construção da imagem do homem e da mulher negra no Brasil, esse processo de reconhecimento se fortalece.

Infelizmente esses espaços não vão se abrir voluntariamente, temos, nós mesmos, que trabalhar para que isso aconteça. Eu sou o mesmo escritor de alguns anos atrás, já até representei o Brasil em uma antologia mundial de ficção científica, mas nunca acessei as oportunidades que consegui agora, o que mudou? Não foram as oportunidades, mas o meu alcance.

Então é meu papel agora ajudar outros a alcançarem algumas dessas oportunidades e é assim que acredito que vamos melhorar a representatividade: um negro indicando, puxando, convidando e apoiando o outro, pois somos os únicos interessados na mudança desses status social.”

Critérios

Ale conta todas as histórias contadas mexem com seu emocional: acredita que se não o comove, não há impacto no alcance. “Eu preciso sentir, raiva, medo, tristeza, coragem, orgulho quando eu escrevo”, diz.

 

Atualmente, Ale conseguiu um contrato com a editora Panda Books para adaptar suas threads para um livro, processo que já dura alguns meses. No momento, se concentra em estar focado para manter seu trabalho com qualidade e estabelecer oportunidades sólidas para que o mesmo possa ser útil, não apenas para sua própria história de vida, mas para a de outros autores

 

Fernanda Batista

Formanda em Comunicação Social - Jornalismo pela FACHA, já passou pela TV legislativa da Câmara dos Vereadores, atuando na produção de jornalismo, e na assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Direitos Humanos.

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