À sombra do racismo institucional

“Vivemos mais uma tentativa de genocídio do povo negro” com essas palavras, Renata Souza, Deputada Estadual do Rio de Janeiro, definiu a ordem de despejo imposta ao Instituto Palmares de Desenvolvimento Humano (IPDH).

Manifestação em frente ao IPDH

Fundado em 2 de janeiro de 1989, há 30 anos, a ONG localizada no Corredor Cultural da cidade, aos pés dos Arcos da Lapa, é um espaço onde são oferecidas aulas de dança e arte, com enfoque na cultura ancestral africana.


Na última terça-feira, 29, o Instituto recebeu uma ordem de despejo emitida em setembro de 2018 pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A justificativa de irregularidade causada por um incêndio, em 2010, foi o pivô da ordem, porém Bruno Cândido Sankofá, advogado do instituto, vê a medida como dúbia, pois os danos causados pelas chamas já foram reparados pelos membros – sem auxílio governamental: “Enquanto o Estado alega irregularidades no local, os alunos assistidos pelo IPDH demonstram que foram feitas benfeitorias, e que, no episódio de incêndio, o governo deixou-os à própria sorte. Com a fragilidade de defesa, presume-se que o processo não andou com a segurança jurídica necessária e ainda, que quanto se envolve políticas públicas, o judiciário, antes deve pensar medidas menos violentas que a desocupação imediata”, afirmou.

Deputada estadual Renata Souza

Ocorrida um dia antes da vistoria marcada pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, a ordem reflete a quase nula valorização do povo que ajudou a formar a história do país- e o descaso se alastra como fogo, o mesmo que atingiu o Museu Nacional, em setembro de 2018. “Esse espaço não era só nosso, mas de toda a comunidade negra. É uma perda enorme, ainda mais no momento em que o panorama para os jovens negros é tão desfavorável”, afirmou Dona Catarina, diretora administrativa. Às portas fechadas e sob forte calor, na última quarta-feira a calçada do Instituto abrigou falas de Renata Souza, além de contribuições através da música e do poema.

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”, afirmou o Presidente Jair Bolsonaro. Entregues a homens brancos, que decidem o que é ou não cultura, membros do IPDH acreditam que a medida é uma forma de conter os avanços feitos em relação a políticas públicas que contemplam o povo negro. Aos gritos de “Não vão nos parar” o grupo de manifestantes aproveitou o momento para, além de trocar afeto, pensar em estratégias suficientes para contornar a política reacionária que está em avanço.

Segundo informações do departamento jurídico, o Governo do Estado pediu a retomada do espaço em 45 dias, mas a direção do IPDH conseguiu mudar o prazo para 15 dias. De acordo a diretoria, as próximas semanas serão marcadas por reuniões junto à Justiça, a fim de resolver pendências e, com isso, retomar o espaço pensado pelo e para o povo negro.





Ana Paula Souza

Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha como jornalista da Agência Narra, cuja sede é o Observatório de Favelas.

Um comentário em “À sombra do racismo institucional

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: