Resistência preta na cultura

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Por Mariana Reis

Todo artista tem que ir aonde o povo está..”Uma das canções mais emblemáticas da carreira de Milton Nascimento traduz hoje a filosofia de coletivos pretos que produzem arte atualmente no estado do Rio de Janeiro. Em tempos de um avanço neoconservador e direta influência de bases fundamentalistas religiosas na política, os investimentos públicos destinados a produções culturais, que abordam temáticas destinadas à “raça”, estão se tornando cada vez mais limitados ou se extinguindo.

A última notícia publicada – no dia 16 de setembro de 2019 pelo jornal Globo – afirma que o presidente Jair Bolsonaro não aprova produções cinematográficas destinadas a narrativas de negritude e homossexualidade. Diante disso, a Ancine rescindiu o termo de permissão para ajuda de custo dos filmes “ Greta” e “ Negrum 3”. Outra notícia de extrema censura e cerceamento do governo a atuação da Ancine é o cancelamento da estreia do filme “ Mariguella” produzido pelo ator Wagner Moura no dia 20 de novembro de 2019 (Feriado da Consciência Negra).

Contrariando todo este cenário sombrio  de censura e apagamento dos símbolos da negritude nos espaços da cultura pelos governos vigentes(municipal e estadual) , iniciativas potentes tem subvertido essa  tentativa do genocídio cultural às nossas produções no Rio de Janeiro( seja no cinema, no teatro, na música ou na dança).

Um dos exemplos é o cinema negro que emerge diante desta neblina de intolerância e tempos de ódio em que se cerceia o poder de criação dos cineastas. Historicamente, artistas negros foram retratados majoritariamente por representações negativas nas narrativas cinematograficas, fixando assim estereótipos associados ao serviçal, subalternizado, atrasado, animalesco ou perigoso. Reproduz- se assim a continuidade das estruturas do racismo com referências de um cinema colonialista.

Fazendo o contraponto com esta lógica através de seu trabalho, o cineasta Clementino Junior coordena o projeto CAN (Cinema Atlântico Negro) que recentemente completou 11 anos, sediando- se no Terreiro  Contemporâneo, espaço conhecido como quilombo das artes negras. O projeto visa utilizar o cinema como instrumento pedagógico para a educação, trabalhando na formação crítica e profissionalizante dos novos cineastas e disseminando produções cinematográficas com recorte étinico racial. Ao explicar o foco deste trabalho de resistência, Clementino Junior enfatiza a intenção do projeto: 

“Minha cinematografia, acredito é “marginal” até dentro de mostras com  recortes étnicos, talvez por uma questão geracional (os destaques do atual “cinema negro brasileiro” estão entre os 24 e 30 anos de idade) e tem um diálogo mais direto em linguagem e urgências do que o tipo de filme que faço, mas a produção constante dos meus filmes com protagonismo negro, anterior inclusive à criação do CAN – Cineclube Atlântico Negro, é a minha forma particular de contar histórias a partir de meu lugar enquanto homem preto no mundo. E como me preparei a vida toda, de maneira autodidata, para cumprir o máximo de funções na cadeia do audiovisual, consigo ter uma produção constante que em raros momentos precisa de algum apoio financeiro para ser finalizado. Normalmente tenho a colaboração de parceiros de longa data e ex-alunos que se aprimoraram a partir de meus cursos, seguindo nos estudos em audiovisual, e contribuindo e “me alimentando” de arte e criatividade em minha produção.”

O mesmo acredita que os cineclubes e as oficinas populares de audiovisual são as melhores formas de inclusão cidadã pois acredita que se reduz as desigualdades  no acesso a bens de consumo, possibilitando a democratização do cinema da arte para além dos Blackbusters. Nesta linha de pensamento, Clementino aconselha os novos cineastas que desejam abraçar projetos críticos:

 “Assistam filmes feitos por pretos no século XX, mas assistam também obras feitas em outras realidades não ocidentais, e assistam de forma crítica o cinema hegemônico, invertendo a lógica de apropriação cultural a seu favor, na técnica e linguagem, e impondo outras formas de contar histórias. E inspirado em um nordestino, Paulo Freire, buscar a partir de suas obras narrativas sobre “o anúncio” para além da “denúncia.”

Clementino Junior é o coordenador do projeto Cinema Antlântico Negro.Foto: Stefano Fígalo

E por falar em novas gerações da comunidade preta, outra vertente da Arte que parece está revolucionando a cena cultural fluminense é chamado “ Teatro preto”.Os espetáculos liderados e produzidos por artistas negros possuem 85% do público também negro. Este movimento visibiliza uma geração não só de atores como autores, produtores, técnicos e diretores de espetáculos. Coloca -se na centralidade de discussões destas novas produções, temáticas principais como: racismo estrutural, ancestralidade africana, genocídio e militarização dos corpos negros, masculinidade negra, solidão da mulher negra, colorismo e representatividade da população negra em espaços de poder. É pertinente lembrar neste contexto frutífero que este ano faleceu a atriz Ruth de Souza, primeira atriz negra a atuar no Teatro Musical e a primeira brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema, principal ícone desta nova safra de artistas.  Outra inspiração para estas novas companhia é o Teatro Experimental de Abdias, experiência artística que engajou-se na luta de combate e desigualdade social através da sua linguagem. 

Seguindo similaridade na intenção cultural e política do seu trabalho, a Confraria do Impossível é um grupo de atores negros que se apresenta como forma de resistência às estatísticas de assassinatos da juventude negra, além de ter como norte às suas produções, a revolta popular junto as políticas genocidas do Estado.O ápice da consagração do grupo foi a indicação a três prêmios Shell em 2018 (autoria, direção e música) da peça “ Esperança na revolta” e a premiação de melhor direção à André Lemos no início deste ano. O espetáculo aborda situações de guerra em diversos contextos mundiais e como as pessoas sobrevivem diante das violências através da resistência. O diretor André Lemos comenta sobre a experiência de ter sido o primeiro diretor negro premiado em meio a uma conjuntura política tão adversa:

“Eu acredito que a premiação foi um avanço nas agendas do movimento artístico negro que nunca havia conseguido ganhar esse prêmio que  é mais importante do teatro mas acredito que ainda é um avanço muito mínimo pelos retrocessos que estamos vivendo de um modo geral.Embora tenhamos conseguido um marco, o momento é de poucos avanços e muitos retrocessos”

Sobre as formas de resistência do teatro a este momento, André ressalta:

“ As formas de resistência são várias. Hoje a gente precisa trabalhar muito em cima da base, através do contato com as comunidades, com os jovens, com as escola, num trabalho de reconhecimento da representatividade e ancestralidade negra. A Confraria é uma das perspectivas é trabalhar para outros grupos, não só o adulto. O nosso próprio espetáculo “ A saga de Dandara e Bizum a caminho de Wakanda” que estreia em outubro e fica em novembro no Sesc Tijuca é um trabalho de representatividade com crianças negras, com poesias de Conceição Evaristo. Na Confraria, nós mantemos um trabalho de intervenção urbana que é de tentar fazer da cultura, do teatro, do audiovisual algo mais popular e coletivo.”


Andre Lemos durante o prêmio Shell de 2019. Foto: Arquivo pessoal

Outro aspecto cultural que  potencializou a resistência da cultura negra são os cancelamento sistemáticos ou falta de patrocínio a  eventos culturais, rodas de samba e espaços de preservação da ancestralidade negra nos locais públicos da cidade. As rodas de samba em específico sofreram tantos cancelamentos ao longo do ano passado até o início deste ano que criou-se um movimento de produtores e sambistas, gerando a extinção do alvará da Secretaria de Cultura para autorização destes eventos .Uma grande personagem da cena não só das rodas de samba como da cultura “ black” no Rio de Janeiro é a DJ Bieta( também produtora e estilista da cena negra). 

A mesma emite suas considerações com relação a esta conjuntura de falta de incentivo a cultura negra e ao mesmo resistência e potencialização da criatividade entre a comunidade:  

  “O que temos agora sobre posições políticas são totalmente avesso do que a cultura e arte proporciona._Quanto “sobreviver” financeiramente é uma questão de oportunidade e gestão. Normalmente  a oportunidade é gerada de forma independente ou coletiva/comunitária.Neste exemplo a gestão é milagrosa .Tiramos leite de pedra entre nós mesmos. “

Sobre as novas estratégias da cultura negra de forma geral(arte, música e religiões de  matrizes africanas), Bieta visibiliza alguns exemplos: 

“O teatro Negro explodiu! A cada momento surge um novo e excelente trabalho já o teatro “convencional” está em crise,salas vazias e sem temas atrativo isso talvez seja porque nós estamos nos produzindo, nós preferimos nos assistir.Então o teatro “convencional” nos incluI ou vai continuar perdendo público popular.Direcionando a sua pergunta quanto as_religiões de matrizes africanas a estratégia mais eficaz (mantendo na linha do perigo  em ser uma pessoa negra e candomblecista) está sendo a denúncia. As pessoas de Ashé sempre foram empreendedoras, temos espaços como a Casa Omolokum que mantém ilegitimamente a cultura Afro  Religiosa e Cultural. Outra estratégia é utilizar a essência ubuntu, se aliar a outras manifestações culturais como no Teatro já dito exemplo Oboró – Masculinidades Negra (dirigida por Rodrigo França) e rodas desamba como Awure em Madureira.”

Bieta é DJ , produtora e estilista. Foto:Lumena Aleluia

Por fim, em meio ao cenário de retrocesso e desfavorável as políticas culturais de incentivo as representações culturais da arte preta, reafirmamos a frase icônica de Conceição Evaristo: “ Combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”. Os enfrentamentos ao “genocídio artístico negro”, impostos pelos governos conservadores vigentes, são diários mas as iniciativas de resistência de potentes artistas agregam uma perspectiva de criação revolucionária, anti colonialista e de preservação da nossa diáspora na cena fluminense.

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