A relevância da problematização

A participação de Mano Brown no clipe “Melhor que eu”, de Cléo (Pires), protagonizando com a mesma cenas quentes, provocou grande burburinho nas redes sociais. Uma das principais vertentes destas conversas foi (é) o debate sobre a hipersexualização dos corpos negros por brancas e brancos. Como reação, críticas a esta “problematização” – este é o ponto que trago para cá.

Inicialmente, uns pitacos: como obra, o vídeo é ruim; como ousadia, o conteúdo é fraco; como música, o som é ruim; como artista, a dublê de atriz e cantora é anedótica; como galã, o rapper não esteve em seu melhor trabalho. A bomba, disponibilizada no Youtube, é completada pela construção estereotipada do cenário. Salva-se a moral dada à galera do Capão Redondo.

O casal patricinha branca e negro favelado motivou questionamentos sobre fetichização e relações inter-raciais, além da famigerada “palmitagem”. Assuntos cotidianos de conversas, discussões e estudos da comunidade preta mundial. No entanto, para certo grupo (chegaremos a ele), é buscar pelo em casca de ovo sustentar esse papo porque há coisas mais importantes no mundo.

Claro (!) que esta turma é formada majoritariamente por desmelaninados – e pelo Fernando Holiday… Curiosamente, grande parte dela constituídas por seres politizados e “de Esquerda”… Voltamos, para além do desmerecimento das várias peculiaridades que formam cada comunidade da nossa sociedade, para dúvida sobre até onde vale o “ninguém solta a mão de ninguém”.

A tentativa de diminuir a importância dos temas identitários, presente no discurso que se convencionou posicionar à Direita do espectro político, ganhou espaço também no campo dito progressista, especialmente no recente processo eleitoral deste ano (alô, Ciro Gomes!), como uma desculpa para a incompetência em conquistar o voto da maior parte da população.

Qualquer pessoa minimamente interessada em qualquer coisa além de seu próprio umbigo sabe que a tarefa de combater preconceitos e estabelecer direitos segue necessária e será sempre relevante. E que a possibilidade de alcançar grupos fora das nossas bolhas a partir de uma situação que tenha se tornado popular é motivadora.

Definir como “chatice” essa abordagem por achar que não está inserido no problema (o que já mostra o tamanho da ignorância sobre seu lugar social) mostra a cegueira de determinados ativistas políticos cegos em suas cirandas batendo cabeças. Achar que o dilema está na problematização e não naquilo que a motiva é iniciar o diálogo em desvantagem.

Houve, ainda, a autodefesa dos que não entendem a necessidade de se falar sobre relações inter-raciais a partir do clipe. Aí, talvez, fale mais alto a falta de entendimento de que não se trata de um ataque pessoal: não pense apenas no seu (feliz, assim espero) particular, mas no conjunto – no tecido social como um corte maior que os metros da sua roupa.

O assunto em si é muito maior que isso e deve ser conteúdo diário. Afinal, são as nossas vidas que estão aí – e a dor da gente não sai no jornal. E sermos protagonistas dessa conversa é fundamental para também mostrar pra essa galera o que eles tentam não enxergar.

P.S.: questionar pontualmente Mano Brown não significa desmerecer sua obra ou mesmo diminuir tudo que ele fez/faz. Ele é grande e, por isso, suas movimentações geram ondas.

Cipriano Jr

Cursou Comunicação Social (Jornalismo) na UFRJ e atuou como repórter na EBC, no diário Lance! e na MBPress - aqui, produzindo conteúdo para a editoria de esportes dos portais UOL e IG. Atualmente, trabalha como analista na equipe digital da FSB Comunicação. Publica quinzenalmente textos de opinião e ficção em seu espaço no Medium. Twitter: @cizenando_ Medium : @cizenando

Um comentário em “A relevância da problematização

  • 6 de dezembro de 2018 em 16:49
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    Acredito que temos que falar mesmo , ler mais e nos reeducar quanto pessoas anti-racistas !

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